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10/08/2025

Desculpe, não tenho infância para postar

“Sem foto da infância — mas com todas as lembranças que custam mais caro que um retrato.”
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Chegou outubro — esse mês cor-de-rosa que nos lembra que o tempo passa, a infância some e o feed do Instagram vira um berçário digital. De repente, todo mundo resolveu ressuscitar sua versão criança: as bochechas infladas, o corte tigelinha, o olhar inocente de quem ainda não tinha conta pra pagar nem terapeuta pra ouvir. É um espetáculo comovente. Um auto-de-fé da nostalgia. Cada rosto miúdo vem acompanhado de uma legenda comovida: “Olha eu aqui, quando tudo era mais simples!” Pois é. Tudo era mais simples porque a conta de luz estava no nome da sua mãe e o IPTU não era sua responsabilidade.

Pois bem, caríssimos, eu — este cronista cansado de tanto existir — anuncio um fato que me coloca fora desse carnaval de ternura: não tenho foto da minha infância. Nenhuma. Zero. Nenhum retratinho de bebê sorrindo em bacia de plástico, nenhuma imagem de primeira comunhão, nem aquela clássica foto de formatura do pré onde toda criança parece um pequeno corretor de imóveis. Nada. É como se minha infância tivesse acontecido fora do enquadramento. Fui, literalmente, uma criança sem registro — uma anomalia no álbum coletivo da humanidade.

E não, não é metáfora poética, não é charme de quem quer parecer misterioso. É realidade mesmo. Se hoje me der um ataque de nostalgia e eu quiser “me ver pequeno”, terei que fechar os olhos e fazer um exercício de imaginação. Imagino um garoto qualquer, com um cabelo que nunca ficou do jeito certo, talvez com um olhar de quem já sabia demais e um sorriso que tentava disfarçar o resto. É o máximo que posso fazer. Minha lembrança é meu álbum. E, como toda lembrança, às vezes mente.

“Mas por quê?”, perguntam, sempre com aquela curiosidade de quem está prestes a abrir uma gaveta errada. E aí é que está: há gavetas que não devem ser abertas. Há álbuns que, se existirem, é melhor que fiquem mofando no limbo das coisas que ninguém mais quer ver. Porque foto também é prova. E prova, às vezes, dói. Digamos apenas que a família, essa instituição tão exaltada nos comerciais de margarina, às vezes é mais parecida com uma guerra civil mal resolvida. E na minha, houve um armistício silencioso: cada um seguiu sua vida e suas memórias, e as fotos ficaram com quem ficou com o resto.

Talvez elas ainda existam, em algum lugar — um envelope esquecido no fundo de uma gaveta, num apartamento onde já não entro há anos. Talvez alguém as tenha jogado fora, sem nem olhar direito, confundindo retratos com papel velho. Não sei. E, sinceramente, já nem quero saber. Porque foto também é prisão. É o retrato de um instante em que você ainda acreditava em certas coisas — e, francamente, há crenças que é melhor deixar morrer. Quando a gente rompe com o passado, o que dói não é o que se perde, é o que se lembra demais.

Então, neste outubro de fotos infantis e corações nostálgicos, declaro que a minha versão criança é invisível — mas está viva. Está em cada escolha que faço tentando não repetir a história. Está na ironia que aprendi a cultivar, porque o riso é o disfarce mais elegante da dor. E se um dia alguém quiser saber como eu era, direi apenas: era igual a agora, só que menor e sem o sarcasmo como armadura. Cresci, e isso é mais do que muita foto pode dizer. Afinal, quem precisa de retrato quando já virou crônica?

9/21/2025

Autópsia da memória e do desejo - Resenha crítica do conto "Manobra de Autópsia" (Natália Paz)

(A íntegra do conto está neste link: https://getinkspired.com/pt/story/625688/manobra-de-aut-psia/).

Natália Paz, em Manobra de Autópsia, entrega um conto que alia intensidade narrativa e precisão técnica, projetando uma cena de reencontro amoroso com a minúcia de um exame forense e a febre de um romance mal resolvido. O título não é apenas sugestão, mas método: a cada seção, a autora abre, expõe, disseca — e convida o leitor a testemunhar a anatomia da saudade.

Logo no primeiro parágrafo, o gesto trivial de Catarina — traçar um coração na taça apenas para apagá-lo — estabelece o tom: tudo aqui é efêmero, mas carregado de peso simbólico. Esse detalhe cotidiano funciona como chave de leitura: o amor é aquilo que se grava e se desfaz no mesmo movimento. Ao redor dela, a festa de casamento se torna metáfora perfeita: celebração pública, mas também liturgia dos mortos-vivos, em que alianças brilham mais como algemas douradas do que como promessas de futuro.

Os personagens como corpos em dissecção

Catarina é o centro da narrativa e, de certo modo, a própria narradora secreta — não apenas porque percebemos o mundo por meio de suas observações minuciosas (o tempo medido em segundos, as rotações da aliança no dedo), mas porque sua voz interior estabelece a cadência do conto. Ela começará uma especialização em medicina legal, e sua escolha ecoa em cada escolha lexical: fala de necrópole, autópsia, exumação. Mas aqui a perícia é sentimental: o casamento morto, a juventude preservada como cadáver em formol, os amores antigos reaparecendo para serem dissecados com o mesmo rigor. Catarina é uma personagem dividida entre o impulso de viver “perigosamente viva” e o cálculo clínico da sobrevivência.

Tomás, por sua vez, é construído pela autora como fantasma e corpo, simultaneamente. Fantasma porque retorna do passado com a força de um trauma não cicatrizado, repetindo gestos e falas que ecoam em Catarina como estilhaços de memória. Corpo porque sua presença física — a gravata frouxa, o perfume que ainda resiste por baixo de novas camadas — desencadeia respostas sensoriais, como se o próprio cheiro fosse uma prova material de que o passado não se extinguiu. Tomás é simultaneamente culpado e redentor, figura de desejo e de ameaça.

O marido de Catarina, Roberto, aparece quase em negativo. Ele é uma ausência marcada por indícios: o caso extraconjugal, as noites de mentira, a indiferença às marcas do corpo da esposa. Se Tomás encarna a memória insuportavelmente viva, Roberto representa a morte lenta do cotidiano. É significativo que, no dilema final, Roberto não apareça fisicamente: resta apenas o celular com mensagens apagadas, um nome hesitado. Sua presença fantasmática é o outro polo da encruzilhada de Catarina.

Técnica narrativa e recursos formais

O domínio do tempo narrativo é um ponto alto. A autora entrelaça presente e passado sem rupturas bruscas: o olhar de Tomás no salão desliza para a escadaria do colégio; a dança atual convoca o banco traseiro do carro adolescente; o terraço frio convoca o banheiro enfumaçado da festa de aniversário. Essas transições não são meros flashbacks, mas verdadeiros cortes anatômicos, mostrando como o tecido do presente é feito de cicatrizes do passado.

A recusa da catarse

É notável que Paz se recuse a oferecer desfecho confortável. O dilema final — táxi ou BMW, lençóis previsíveis ou motor em combustão — não é resolvido, mas multiplicado. O conto se encerra na indecisão, na bifurcação que permanece em aberto. Essa suspensão é o gesto mais corajoso do texto: em vez de conduzir o leitor à redenção ou à tragédia, a autora o mantém diante da incerteza, obrigando-o a sentir a vertigem da escolha.

O lugar de Natália Paz

Num cenário em que a prosa brasileira contemporânea frequentemente oscila entre a ornamentação excessiva e a secura minimalista, Natália Paz encontra um lugar singular: sua escrita é lírica sem ser ornamental, visceral sem descambar em melodrama. A corporeidade de sua prosa — taças, alianças, suor, tecidos, cheiros — ancora a reflexão abstrata em materialidade concreta.

Manobra de Autópsia mostra que a autora domina a difícil arte de conjugar intensidade e técnica. A cada cena, Paz revela que amar, lembrar e desejar são atos inseparáveis de dissecação: abrir o peito alheio em busca de um nome gravado e, ao fazê-lo, encontrar-se diante da própria ferida.

No fim, talvez a maior virtude do conto esteja no paradoxo que ele encarna: é uma autópsia que não resulta em cadáver, mas em sopro de vida. Porque toda memória dissecada continua pulsando, mesmo sob o risco de nos destruir.

8/25/2025

O restaurante do velho Edmundo

 – O velho Edmundo era o melhor cozinheiro da cidade. Digo, cozinheiro de comida árabe. Era argelino, o cara, e falava francês com um sotaque esquisitíssimo. Tinha sido grumete de navio grego, que fazia uma rota no Mediterrâneo. Antes disso, tinha sido artista de circo como homem-bala e fazendo dobraduras com barras de aço. Era um sujeito versátil.

– E a comida?

– O cara tinha aprendido a cozinhar em alto-mar. O pessoal que ele servia estava interessado em duas coisas: gordura e volume. E se não estivesse bom, ele apanhava. Dois anos navegando por aí, o cara aportou no Rio de Janeiro e fugiu. Foi pro Paraná e arrumou um emprego como vendedor de calcinha.

– Hein?!

– É, o cara ia nos puteiros vender lingerie barata. Foi aí que ele conheceu o amor da vida dele. Era uma puta que ele simplesmente elegeu como a coisa mais maravilhosa da face da terra. E EMPRENHOU a puta! Ela nem estava muito a fim dele, tanto que saiu do Paraná e foi pro Rio Grande do Sul, levando a filha, e se escondeu no interior do Estado.

– E daí?

– Daí que ele deu um jeito de encontrar a vadia, viveu um tempo com ela, suficiente para fazer mais duas filhas, e depois não teve chance: se separaram, ele ficou com as três filhas, a mulher foi pro Paraguai, e ele foi pra Porto Alegre, onde montou um restaurante.

– E como era esse restaurante?

– Não era um restaurante aberto ao público. Ficava numa esquina esquecida, perto do centro da cidade. Para entrar ali, era preciso ser indicado por outro freqüentador do recinto.

– Como um clube fechado?

– Exatamente. Como a memória do velho Edmundo estava meio prejudicada, havia uma senha. Era o nome artístico do velho no tempo em que ele cantava ópera: “Grilli”. Era só chegar na janela e gritar: “E aí, Grilli, esse quibe sai ou não sai?”

– Mas e a comida, porra?

– O melhor quibe cru que eu já comi na minha vida. Tudo era bom lá. Só tinha alguns problemas: a comida levava umas duas horas pra ficar pronta, tinha uma maldita tevê preto-e-branco ligada a TODO VOLUME em cima do balcão, e as baratas andavam por tudo.

Aqui se come (1) - Kapusniak

A distante Polônia apresenta uma culinária saborosa, rústica e robusta. É comida feita por e para camponeses que dão duro o dia inteiro. Como em todo país frio, tem várias versões de sopas e ensopados. A czernina, por exemplo, é uma espécie de pato ao molho pardo (ensopado no próprio sangue), acompanhado de batata-doce e talharim caseiro. Se você comer um prato desta sopa - deliciosa, por sinal -, saboreando um excelente vinho tinto, pode ficar trancado num freezer por dois dias sem problema. Claro que é politicamente incorreto sugerir que você compre um pato vivo e corte precisamente a jugular da ave e aguarde, pacientemente, que todo o sangue escorra para dentro de uma panela - enquanto o bicho esperneia. Nós somos pessoas civilizadas, não é mesmo?

Ao invés disso, vou contar como se faz uma excelente sopa de repolho, a kapuśniak.

Comece colocando uma meia-garrafa de vodca Wyborowa no congelador, de um dia para o outro. Na manhã seguinte, abra a vodca e sirva uma generosa dose em um copo pequeno. Beba tudo de uma vez. Tem gente que bota pimenta branca moída dentro do copo, para dar um punch a mais. Eu já experimentei e recomendo.

Pegue duas batatas-doces, descasque, pique e coloque numa panela de pressão com água. Dê pressão nas batatas por uns 20 minutos, até que desmanchem. Enquanto isso, sirva-se de mais uma dose de Wyborowa. Veja como, pouco a pouco, a vida começa a parecer mais agradável. Um salaminho com limão cairia bem agora...

Bem, abra a panela de pressão (estou presumindo que você SAIBA como abrir uma panela de pressão). As batatas sumiram e se transformaram em um caldo espesso. Este caldo será a base da sopa. Agora entram em cena as costelinhas de porco defumadas. Corte-as em pedaços e jogue neste caldo. Adicione bacon. Neste momento, é hora de temperar. Cuidado com o sal, pois as costelinhas e o bacon já são salgados.

Depois disso, meta pressão de novo. É um bom momento para tomar mais uma dose de vodca. Devido à grande quantidade de álcool, a vodca jamais congela - em aparelhos domésticos, claro. A temperatura de congelamento do álcool é mais ou menos 37 graus negativos. Porém, se você mergulhar uma garrafa de vodca em nitrogênio líquido, ela congela, sim senhor. Mas perceba como, após passar a noite no congelador, ela adquire uma consistência oleosa e desce que é uma beleza.

Depois de mais 20 minutos, abra a panela. Está quase pronto. Acrescente repolho em fatias finíssimas e cozinhe, sem tampar, por pouco tempo, até que ele fique só um pouco macio mas sem amolecer muito. Apague o fogo.

Neste momento, procure um vinho decente na despensa. De preferência, um Cabernet Sauvignon. Abra a garrafa e beba uma taça, estalando a língua. Olhe pela janela da cozinha e respire fundo. Pense em como a felicidade realmente às vezes está nas pequenas coisas. Não que devamos desprezar as grandes coisas. Tudo tem sua hora.

Esta sopa perde muito do seu sabor se não for consumida com vinagre branco. Funciona assim: encha um prato fundo com o caldo espesso, as costelinhas e o repolho. Pegue a colher, encha com o vinagre e despeje sobre a sopa. Repita a operação quantas vezes quiser, misturando bem o vinagre no caldo e experimentando o gosto. Depois, saboreie a kapuśniak. Beba um bom gole de vinho e grite em polonês sem sotaque: "Na zdrowie"!

4/08/2025

Antes que esfriem os salgadinhos

Bem-vindos ao Papiro do Papo, este blog de fronteira onde se esbarram a criação literária, a análise literária e os "salgadinhos em geral" — esses pequenos acontecimentos da vida que a gente mastiga entre um parágrafo e outro.

Sim, aqui você vai encontrar reflexões sobre Flaubert, Ferrante e Fernando Sabino, mas também sobre o senhor de camiseta regata que atravessa a rua de meia com chinelo, ou sobre aquele casal que termina o relacionamento por mensagem na mesa ao lado do café. Tudo é texto. Tudo é tema. Tudo é matéria.

Este blog é para quem escreve, lê, observa ou simplesmente gosta de ficar reparando.
A ideia é alternar entre crônicas, provocações, exercícios de escrita, trechos de um romance que talvez nunca fique pronto (e que talvez seja justamente esse o ponto), comentários sobre personagens que moram em páginas — e outros que moram no bairro.

O nome? Papiro do Papo é brincadeira séria: um espaço de escavação, mas também de conversa. Um rolo antigo cheio de rabiscos novos. Uma página em que a erudição pode dividir espaço com a curiosidade mais besta — como se fosse possível, por exemplo, comparar a construção de Madame Bovary com o andamento dramático de um karaokê de bar.

Se você se interessa por estilo, estrutura, personagens, ritmo, voz narrativa — ou apenas quer saber o que passa na cabeça de alguém que passa tempo demais tentando escrever sobre quem não existe —, puxa uma cadeira.

E se não for pedir muito, traga um salgado. Dos bons. Nada de coxinha com recheio tímido. Aqui a gente quer crocância e intensidade — no texto e na massa.

Até a próxima.

Com açúcar e com afeto,

A. S. (aquele mesmo que fica escrevendo na mesinha da loja de conveniência)