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1/17/2026

Sexo e Farofa

Eu sempre acreditei que o destino tivesse senso de humor, mas não imaginava que fosse do tipo sacana. Daqueles que te colocam num supermercado às 23h47 de uma terça-feira para comprar duas coisas que, juntas, denunciam imediatamente uma pessoa: camisinha e farofa.

Não era nem a farofa de marca séria, aquela com orgulho de raiz e sódio suficiente para empalhar um javali. Era farofa temperada. Com bacon artificial. O que me transformava oficialmente no tipo de homem que perdeu o rumo da própria vida — e nem percebeu.

Eu podia explicar. Juro que podia. A camisinha era óbvia — prevenção, civilidade, pacto honesto com a Organização Mundial de Não Arranjar Filhos e Doenças. Mas a farofa… ah, a farofa tinha história. Tinha promessa. Tinha saliva. Porque nada diz mais sexo real do que a fome que sobra depois. E alguém, algumas horas antes, tinha sussurrado no meu ouvido:

— Depois eu quero farofa. Daquela bem porca.

E aí, meu amigo, quando alguém fala isso no teu ouvido com a boca quente de vontade, você aceita. Você aceita qualquer coisa. Você atravessa a cidade, abandona princípios morais, trai sua lombar, esquece a dignidade no porta-luvas. Vai. Faz. Compra. Farofa. Acontece.

Foi assim que eu parei no Extra da Ricardo Jafet às 23h47, iluminado por neon cansado, cercado por gente que já tinha desistido do amanhã. Carrinhos rangendo como lamentos existenciais. O inferno tem ar-condicionado e fica aberto até meia-noite.

Aí ela apareceu.

Jeans preto. Camiseta branca. Cabelo preso num coque bagunçado que parecia de propósito. Um tipo de beleza simples, perigosa, dessas que não pedem atenção — pegam. Corpo direto ao ponto: fome, curiosidade e algo na postura que dizia eu sei entrar e sair de histórias sem me queimar.

Ela empurrava o carrinho com quatro itens essenciais da vida adulta suspeita:
— vinho barato,
— papel higiênico folha dupla,
— leite condensado,
— e um pacote de pão de forma, como quem declara ao mundo: “não tenho mais ilusões”.

Ela olhou pra mim. Depois para minha mão. Depois para o que eu carregava. E sorriu — o sorriso clínico de quem diagnostica alguém sem piedade.

— História interessante aí, hein.

— Longa demais pra contar — respondi. — Mas posso garantir que envolve moralidade duvidosa, sódio e escolhas erradas.

Ela se aproximou. De perto, tinha olhos que falavam dialetos antigos de luxúria funcional. Gente que já viveu. Gente que não perde tempo com frescura emocional.

— Histórias longas são as melhores. Dá pra resumir?

— Em três frases.

— Manda.

— Promessa carnal. Falta de planejamento. Farofa.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Isso não são três frases. Isso é um convite.

Foi ali, entre sacos de carvão e promoção de salsicha, que percebi: o universo às vezes abre portais. Pequenos portais lubrificados.

— E você? — perguntei. — Vai levar leite condensado pra quê?

— Eu não explico nada depois das onze da noite — ela disse. — Mas posso mostrar.

Fudeu. Eu estava dentro. Não havia mais retorno possível. Desejo não tem freio ABS.

Ela se aproximou mais. Perigoso perto. Um cheiro limpo de banho recente misturado com pele quente e intenção. Falou baixo:

— Você cozinha?

— Faço o básico.

— Ótimo. Eu transo o básico. A gente combina.

Eu ri. Ela não.

E foi assim que o Extra virou prelúdio, o caixa automático virou cúmplice e a madrugada se abriu como perna impaciente.

Mais tarde, no chão da cozinha dela — azulejo frio, boca quente, mãos erradas nos lugares certos — descobri duas verdades absolutas:

1. Tesão é logística.

2. Farofa não é acompanhamento — é destino.

****

Ela mordeu meu lábio como quem assina contrato e disse no meu ouvido:

— Joga a farofa. Eu quero suja. Quero indecente. Quero desgraça.

E eu fiz. Porque há pedidos que vêm de regiões da alma onde Deus não fiscaliza.

Depois, suados, ofegantes e vivos de verdade pela primeira vez na semana, dividimos a mesma colher direto do saco. Ela, nua, mastigando farofa como pornografia antropológica, virou pra mim e disse:

— Isso não foi sexo casual. Isso foi nutrição.

Algumas pessoas acreditam no poder do amor. Outras, no destino.

Eu? Eu acredito no Extra da Ricardo Jafet.

Porque depois daquela noite aprendi: sexo passa; farofa fica.


Continua.
A vida é suja e deliciosa.

Série SEXO E FAROFA
(uma ode à carne, ao caos e à lucidez brasileira)

10/22/2025

A Toca da Esfinge e o dom do olhar profundo: uma leitura dos poemas de @tocadaesfinge

Há poetas que escrevem como quem borda — ponto por ponto, com cuidado, costurando o sentimento até que ele se torne forma. Outros escrevem como quem respira — instintivamente, com ritmo natural, sem pedir licença à racionalidade. Em @tocadaesfinge (visite o perfil do Instagram), a impressão é de alguém que faz ambas as coisas ao mesmo tempo: pensa e sente com igual intensidade. Sua poesia habita um raro território intermediário entre o intuitivo e o elaborado — uma síntese que a crítica moderna, por vezes apressada, tende a subestimar.

1. A mulher-loba e a poética da intensidade



O primeiro poema, de tessitura extensa e narrativa, é quase um retrato expressionista. A autora constrói a figura da mulher indomável com uma precisão imagética notável — “uivava baixo para atrair e com potência para se fazer entender” —, frase que parece saída de um filme de Tarkóvski adaptado ao trópico. A força do texto está na alternância de registros: o épico e o doméstico, o cósmico e o cotidiano, coexistem sem atrito. Tecnicamente, o poema combina lirismo confessional e descrição realista com domínio de ritmo e cadência, ainda que de modo orgânico, quase oral.

A metáfora central — a mulher como força da natureza — é sustentada por uma coerência interna rara: cada imagem amplia o eixo da liberdade e da entrega. Há aqui ecos de Hilda Hilst, mas com uma doçura que pertence apenas à autora.


2. O tempo que dança bossa nova


No segundo poema, a poeta transita para uma estética minimalista, de tom coloquial e musicalidade leve. O tempo, esse velho tema da poesia ocidental, surge humanizado, “passa arrastado, feito unha de gato no sofá novinho” — uma imagem de surpreendente eficácia sensorial. O contraste entre o cômico e o terno é manejado com precisão.

Do ponto de vista técnico, nota-se uma estrutura cíclica: a abertura em ritmo lento (tempo arrastado), o clímax no “tempo que passa cantando bossa nova” e a resolução no convite à disposição. O poema é redondo, resolvido em forma e tom. Há nele uma sabedoria serena que lembra Drummond em A Máquina do Mundo, mas com uma voz mais íntima, quase doméstica.


3. Ser dona de si


O terceiro texto é o mais conciso, mas também o mais declarativo. “Ser livre é ser incapaz de se deixar limitar” poderia soar como aforismo de perfil de rede social — não fosse o contexto poético que o envolve. A autora escapa do clichê pela cadência e pela ironia leve (“Ri da possibilidade de me ver assim”). O poema é um exercício de voz: breve, mas contundente, sustentado por ritmo e pausas precisas.

Do ponto de vista técnico, há domínio de paralelismo e de antítese, e a fluidez entre verso livre e frase prosaica cria uma tensão produtiva. A economia verbal aqui é virtude, não limitação.


4. O ranço e o grotesco


O quarto poema rompe o lirismo dos anteriores e adentra o terreno do grotesco, com resultados notavelmente expressivos. O uso da palavra “ranço” como eixo metafórico é arriscado — e é justamente esse risco que dá força ao texto. A autora constrói uma sátira visceral, que mistura humor, repulsa e crítica social, sem perder densidade literária.

Há ecos de Arnaldo Antunes e Angélica Freitas, mas com uma voz narrativa que sabe rir de si mesma: “Viveria na corte dele, talvez seria o bobo, e ele glutão e escroto.” A ironia, nesse ponto, atinge maturidade estilística. É a poeta mostrando que sabe lidar tanto com o sublime quanto com o asqueroso — e que ambos, afinal, são matéria da vida.


Avaliação técnica

Imagética: 9/10

Uso consistente e sensorial das imagens, com fluidez entre planos simbólicos e concretos.

Musicalidade / Ritmo: 8,5/10

Cadência natural, domínio de pausas e repetições; alguns versos poderiam explorar mais o silêncio.

Originalidade de voz: 9/10

Há autenticidade, humor e densidade emocional — uma dicção própria já em amadurecimento.

Consistência temática: 9/10

Liberdade, tempo e identidade feminina aparecem como fios contínuos e coerentes.

Técnica formal: 8/10

Predomínio do verso livre bem manejado; linguagem prosaica ganha dimensão poética sem esforço.


Conclusão: a esfinge que se revela

Ler @tocadaesfinge é perceber uma autora em pleno domínio de sua sensibilidade — uma escritora que já encontrou sua voz, mas ainda a reinventa a cada texto. Sua poesia combina o gesto confessional com um refinamento técnico discreto, que não se exibe, apenas se deixa notar.

Há nas suas palavras uma espécie de “inteligência emocional estética”: ela entende o humano pela linguagem e entende a linguagem pelo humano. E talvez seja esse o maior elogio que se possa fazer a uma poeta — a capacidade de fazer o leitor sentir que a vida, ainda que fugaz, é plenamente habitável pela palavra.

10/18/2025

A Farofa Invisível (série "Sexo e Farofa")

O apartamento ainda cheirava a corpo.
Corpo e cebola.

Deve haver algo de profundamente brasileiro nessa mistura — o perfume da carne e o cheiro da cozinha, como se o amor, no fim, fosse apenas uma refeição que a gente esqueceu de lavar a louça depois.

Abri a janela e a cidade entrou como um cachorro molhado: ruído, ar úmido, solidão. São Paulo nunca dorme, mas às vezes cochila com um olho aberto, vigiando a miséria dos outros.

A pia tinha pratos empilhados, duas taças, um garfo solitário e o pote de farofa. Aquela farofa que sobrou de ontem — ontem que já parecia uma vida inteira. Peguei o pote. Ainda estava morno da memória.

Não sei se alguém entende o que é acordar com restos.
Restos de alguém, de vinho, de desejo.
Tudo o que sobra tem uma honestidade que o prazer nunca alcança.

Tomei um gole de café frio. A boca ainda tinha o gosto de sal e ironia. Na mesa, um pedaço de papel com a letra dele:

“Volto quando a chuva parar.”

Chove há três dias.

No começo, eu achava bonito dormir com alguém que fala pouco. Agora acho perigoso. O silêncio dos outros é uma floresta: você entra achando que é sombra, mas sai coberta de musgo.

Toquei a colher dentro do pote. A farofa estava seca, dura, com aquele brilho de gordura que se nega a morrer.

Provei.

Era boa.

Tinha o gosto das coisas que se recusam a pedir desculpa.

A luz da manhã entrava torta, cortando o chão em faixas. Havia farelos espalhados — pequenas estrelas amarelas sobre o piso preto. Pensei em varrer. Não varri.
Varrer é apagar provas, e eu ainda precisava delas.

No rádio do vizinho tocava um sertanejo antigo. Alguém cantava que “ninguém é de ferro”. Discordei em silêncio: somos todos um pouco de ferro — enferrujados, cortantes, pesados.

Peguei o celular, abri o aplicativo de mensagens e não escrevi nada. O desejo é covarde às nove da manhã.

Abri a geladeira. Metade de uma garrafa de vinho, meio limão, o pote de farofa.
Trindade de quem vive só.

Sentei no chão. A cidade fazia barulho de ônibus e perdão. E pensei que talvez o amor fosse isso: o momento em que a gente olha o próprio resto e diz “ainda serve”.

A farofa, invisível sobre os dedos, parecia ouro pobre. E eu, como sempre, estava à altura do desperdício.

***

Ele tinha o hábito de acender o cigarro antes de vestir a calça, como se o corpo precisasse de nicotina para aceitar de volta a decência. Lembro disso porque ainda há cinza na beirada da pia, e o corpo dele, agora ausente, continua poluindo o ar da cozinha.

Disse que iria comprar pão. Mas não disse qual padaria, nem se voltava. Pão é a forma educada de sumir — alimenta a esperança enquanto esfria o afeto.

Passei os dedos pelo lençol amassado. Tinha o cheiro dele e da farofa. Sim, ele abriu o pote depois, rindo, dizendo que era “comida de gente feliz”. Eu não estava, mas comi. A felicidade é contagiosa por alguns minutos; depois vira indigestão.

Enquanto ele mastigava, falava de política, de traduções, de como o mundo estava cansado de gente que sente demais. Eu fingia ouvir, mas só observava a forma como os ombros dele se moviam quando mastigava. É estranho desejar alguém e, ao mesmo tempo, saber que não vai funcionar. O corpo grita “fica”, a lucidez cochicha “não compensa”.

A cama rangeu.

A cidade tossiu um trovão.

Ele me olhou com aquela expressão de quem não promete, apenas acontece.
Houve um toque — breve, morno, familiar — e o resto do diálogo foi substituído por respiração.

Não há como descrever o instante em que duas pessoas param de pensar. É a única hora em que o tempo respeita o corpo. Depois, tudo volta a ser relógio e culpa.

Quando acabou, ele riu, meio culpado, meio vitorioso, e disse:

— Você devia vender essa farofa. É melhor que terapia.

— A terapia é mais cara — respondi. — E menos gostosa.

Ficou um silêncio que não era constrangido, mas cansado. O tipo de silêncio que você embala, porque sabe que vai acabar logo.

Ele levantou, vestiu a calça, acendeu outro cigarro. Disse “já volto” e foi comprar pão. Três dias depois, ainda não voltou.

Abri a janela — essa janela sem vista que todo apartamento tem — e o cheiro da chuva entrou com cara de piada velha.
No fundo do pote, um restinho de farofa, um punhado mínimo de sal e gordura. Peguei com a ponta dos dedos. Era a prova material de que algo aconteceu. O resto é lembrança e digestão.

***

A casa amanheceu do mesmo jeito: pia suja, cheiro de cebola, farofa pela metade. Nenhum drama, só continuidade.
Descobri que a vida não termina — ela repete.

Passei a vassoura, mas os farelos teimaram em ficar. Eles brilham, minúsculos, entre as frestas do piso, como se o pó de ontem quisesse continuar morando comigo. Pensei em Clarice, aquela mania dela de achar sentido até em casca de banana. Pensei também em Bukowski, que diria “varre logo essa merda e abre outra garrafa”.
Entre os dois, escolhi observar.

É curioso o quanto o resto das coisas se parece com o resto das pessoas. Depois que alguém vai embora, sobra um pouco de tudo: um par de meias, uma frase solta, o reflexo no espelho. E a farofa — inevitável, democrática, nacional. Todo amor acaba com farofa no prato, no chão ou no coração.

Sentei no sofá e fiquei olhando a fumaça do café, o mesmo ritual de todos os dias. O tempo é o verdadeiro amante de quem vive só: chega sem ser chamado, faz o que quer e sai pela porta deixando a conta. A solidão, percebo, é um luxo que poucos sabem usar.

Ri sozinha.

O riso veio fácil, desses que saem porque o corpo se defende. Lembrei do que ele disse sobre terapia e pensei que talvez estivesse certo. A farofa tem algo de terapêutico: não julga, não consola, mas te ocupa a boca para não dizer besteira.

A cidade lá fora ronronava o mesmo caos. Um caminhão de gás tocava a música da infância, os cachorros latiam, alguém discutia por vaga de estacionamento. Tudo normal, como se a minha tragédia fosse uma piada interna do universo.

Peguei o pote e olhei contra a luz. Os grãos dourados pareciam suspensos no ar — poeira com dignidade. Foi aí que percebi que a farofa era invisível não por falta de cor, mas por excesso de costume. Ela estava em tudo: na pia, na pele, na memória. Como o amor quando ainda não aprendeu a morrer direito.

Talvez seja isso que resta da vida: o gosto leve e salgado das coisas que não voltam. O corpo esquece, a boca lembra.
E o mundo gira, mesmo que a gente ainda esteja sentado à mesa esperando o pão que nunca vem.

***

A tarde caiu do jeito que São Paulo sabe fazer: preguiçosa, encardida, com uma luz bege que não ilumina nem escurece. O rádio falou de trânsito e política; eu mexia a farofa na frigideira sem fogo, só pra ouvir o som. É preciso barulho pra fingir presença.

O apartamento parecia suspenso, meio fora do tempo. Pensei nele — ou em todos os “eles” que já passaram. Os nomes somem, mas o corpo lembra os gestos: a mão que acende o cigarro, o riso torto depois do gozo, o silêncio que sempre vem antes da porta bater. A cada lembrança, mais farelo.

Clarice sussurra: “o que permanece é o instante.” Bukowski responde: “o instante acaba em dois tragos.” Entre um e outro, estou eu — mulher, resto e testemunha.

Olhei para o prato e percebi que a farofa estava no ponto exato entre quente e fria, viva e morta. Como o amor quando já desistiu de doer, mas ainda não aprendeu a desaparecer.

Comi devagar, não de fome — de respeito.
Há rituais que merecem cerimônia, mesmo sem altar. A cada colherada, um pensamento doméstico: o coração é uma panela de ferro, o mundo uma mesa que nunca se limpa, e a gente, o tempero que sobra.

Lá fora, um trovão ensaiou aplausos.
Pensei que talvez fosse Deus aprovando meu cardápio sentimental. Ou só o trânsito comendo pneus na Marginal.

Terminei de comer, fechei o pote e senti uma calma absurda. A vida inteira cabe no intervalo entre o último gol9e e o próximo desejo. E o desejo — descobri — é invisível só pra quem ainda olha com fome de milagre.

Apaguei a luz, deixei a janela entreaberta.
A chuva voltou, teimosa, lavando o ar.
No escuro, a cidade cheirava a comida e arrependimento. E eu, pela primeira vez, me senti completa com o que restava: um corpo, uma lembrança e um pouco de farofa fria.

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Série SEXO E FAROFA

🥄 Crônicas do prazer, do ridículo e da lucidez paulistana.

Sexo passa. Farofa fica.

5/13/2025

De Aria Zênite a Anton Tchékhov: um exercício de estilo

Hoje, vamos brincar de exercício de estilo. A proposta é simples — e deliciosamente literária: pegar uma crônica contemporânea e recontá-la à maneira de um clássico. O ponto de partida é o texto de Aria Zênite, autora que aprendi a admirar, dona de um talento literário absurdamente grande. O link do início do texto no Threads é https://www.threads.com/@rainhadoimortal/post/DJmwaNAPLIH?xmt=AQF0xfW8Z0-NNqha79FuFLppb7akh5_lx9DwcYFb7NzcCg.

Nele, acompanhamos o cotidiano silenciosamente trágico de Helena, uma mulher engolida pelas expectativas alheias, até que, enfim, ousa dizer “não”.

A partir dessa premissa, propomos uma releitura à moda de Anton Tchekhov, mais especificamente de seu conto "A Morte do Funcionário". A graça do exercício está em deslocar o enredo moderno para a estética da Rússia czarista, com seus personagens humilhados, tragicamente passivos, e finais que nos arrancam um sorriso nervoso — ou um suspiro de resignação.

Vamos ver o que acontece quando Helena vira Ivan, e o escritório se transforma num gabinete imperial?

*********

A Última Compreensão de Ilyá Afanássievitch
(Petersburgo, inverno de 1864)

Ilyá Afanássievitch estava na cozinha escura do Ministério de Assuntos Internos, acendendo com dificuldade o samovar — um velho, de cobre, que cuspia vapor como um cavalo ferido — enquanto escutava, quase sem escutar, as lamúrias de Sergei Dmitrievitch, seu colega de repartição, que falava com veemência sobre a febre do filho e o telhado que cedia com o peso da neve.

Ilyá baixava a cabeça. Sempre baixava. Concordava, mesmo sem ouvir. Era-lhe mais fácil assim.

Seus dedos, finos e esbranquiçados do frio, apertavam a colher de açúcar como se pudessem esmagar o tempo. Pensava em quantas horas extras teria de cumprir para salvar, mais uma vez, o nome da seção — como nas outras vezes em que Sergei deixara tudo para o último instante.

— Tu és um santo, Ilyá Afanássievitch. Um verdadeiro servo de Cristo! — disse Sergei, batendo-lhe no ombro com familiaridade, antes de sair com o chá que Ilyá havia preparado. Ilyá permaneceu, olhando para o vapor que se dissipava.

No bolso do paletó, três bilhetes amarrotados enviados ao seu velho amigo Mikhail Alexeievitch — um convite tímido para jantar naquela noite. Aniversário de seus trinta anos. Nenhuma resposta. Nenhuma promessa. Só silêncio.

Voltou à sua escrivaninha. Cruzou com Rodion Vasilievitch, que lhe devia oitenta rublos desde setembro — valor emprestado para consertar o trenó que não usara nem duas vezes. Agora desviava o olhar, como se o reconhecimento da dívida lhe consumisse o fígado.

Sentado, Ilyá abriu os memorandos. Cinco documentos carimbados com urgência, todos entregues após o horário estipulado pelo regulamento ministerial — e três deles sem qualquer relação com suas obrigações.

Mas ele sabia.

“Tu escreves tão depressa, com tanta clareza, Afanássievitch”, diziam-lhe os chefes.

Ou seja: “Faz tu.”

— Reunião geral em dez minutos — murmurou Piotr Arkadievitch, o subdiretor, passando pela repartição sem olhar para nenhum deles, com a pressa de quem sabe que nada o toca.

Ilyá recolheu suas notas. Tinha feito sozinho o relatório sobre as propostas fiscais para as novas províncias do Império. Trinta e seis páginas de cálculos. Quinze noites sem descanso, enquanto os demais iam ao teatro, à vodca, às mulheres.

Na sala de reuniões, sentou-se no banco mais distante da lareira, onde o frio ainda resistia.

Piotr anunciou:

— Aleksandr Nikolaevitch irá apresentar o projeto destinado à nova comissão imperial.

Ilyá tremeu.

Seu projeto. O mesmo ao qual Aleksandr contribuíra com meia página e um gráfico copiado de relatórios anteriores.

Observou Aleksandr apresentar, com desembaraço e confiança, os dados que ele próprio compilara à exaustão.

— Brilhante, Nikolaevitch — disse Piotr. — Vê-se aqui um verdadeiro talento administrativo, digno dos novos tempos que Sua Majestade, o czar Alexandre II, deseja fomentar.

Aplausos.

Aleksandr, condescendente, virou-se:
— Naturalmente, Ilyá Afanássievitch ajudou um pouco...

Silêncio.

Ninguém pediu sua palavra. Nem um gesto. Nem um olhar.

Dentro dele, uma voz sussurrava:
“Ele precisa mais do que tu. E tu compreendes. Tu sempre compreendes.”

No lavatório do porão, Ilyá fitou o espelho ovalado — rachado desde o verão anterior.

Ali estava ele: as pálpebras fundas, o rosto cinzento, a boca trêmula. Aquele que dissera “sim” por medo do “não”.

Na manhã seguinte, chegou antes do sol. Separou, com método e precisão, duas pilhas de documentos: os seus, e os dos outros.

A segunda pilha era enorme.

Descomunal.

Como um peso que lhe empurrava o coração contra as costelas.

Às 8h34, Andrei Petrovitch, o secretário do vice-ministro, surgiu com um maço de papéis atado por fita vermelha.

— Ilyá Afanássievitch, meu caro, preciso que revises esses contratos ainda hoje. Tu entendes, não é? Tenho a recepção no Palácio da Tauride...

Ilyá o olhou. Seus olhos estavam estranhos — molhados, mas firmes.
E disse:

— Não.

Uma só palavra. Baixa. Definitiva.

Andrei recuou.

— Como?

— Esses contratos são vossa responsabilidade, Petrovitch. Não minha.

— Sempre ajudas...

— Por isso mesmo. Agora, basta.

Pela primeira vez, Ilyá ficou de pé diante de alguém. E não tremia.

— Se puder ajudar, que seja dentro da razão. Mas não carrego mais a carga de ninguém, enquanto me chamam de “modesto” e entregam louros a outros.

Andrei apertou os papéis contra o peito.

— Pensei que fôssemos todos servidores do Império...

— Servidores, sim. Escravos — não.

Voltou à cadeira. E sentou-se.

As mãos já não tremiam, mas havia algo estranho no peito. Uma dor seca. Pequena, mas constante. Como se o coração lutasse contra uma mão invisível que o apertava.

Naquela noite, caminhou sozinho pela margem do Neva. A neve caía sobre seu chapéu velho. Pensava em tudo e em nada.

Em casa, recusou o jantar. Não havia fome.

Deitou-se ainda com a sobrecasaca, como se apenas quisesse repousar por instantes.

E então sussurrou:

— Eu compreendo... sempre compreendi...

Fechou os olhos.

E morreu.

Na manhã seguinte, o zelador encontrou-o deitado, sereno. Disse-se que fora de “exaustão”.

No ministério, todos pareciam consternados.

— Um funcionário devotado — comentou Piotr Arkadievitch. — O czar precisa de homens assim... discretos, obedientes.

— Uma pena — disse Aleksandr. — Afanássievitch era tão útil.

Rodion herdou sua escrivaninha. Sergei foi dispensado do relatório daquele mês.
Andrei achou alguém mais jovem para revisar seus contratos.

E Ilyá Afanássievitch?

Não foi mencionado novamente.

4/08/2025

Antes que esfriem os salgadinhos

Bem-vindos ao Papiro do Papo, este blog de fronteira onde se esbarram a criação literária, a análise literária e os "salgadinhos em geral" — esses pequenos acontecimentos da vida que a gente mastiga entre um parágrafo e outro.

Sim, aqui você vai encontrar reflexões sobre Flaubert, Ferrante e Fernando Sabino, mas também sobre o senhor de camiseta regata que atravessa a rua de meia com chinelo, ou sobre aquele casal que termina o relacionamento por mensagem na mesa ao lado do café. Tudo é texto. Tudo é tema. Tudo é matéria.

Este blog é para quem escreve, lê, observa ou simplesmente gosta de ficar reparando.
A ideia é alternar entre crônicas, provocações, exercícios de escrita, trechos de um romance que talvez nunca fique pronto (e que talvez seja justamente esse o ponto), comentários sobre personagens que moram em páginas — e outros que moram no bairro.

O nome? Papiro do Papo é brincadeira séria: um espaço de escavação, mas também de conversa. Um rolo antigo cheio de rabiscos novos. Uma página em que a erudição pode dividir espaço com a curiosidade mais besta — como se fosse possível, por exemplo, comparar a construção de Madame Bovary com o andamento dramático de um karaokê de bar.

Se você se interessa por estilo, estrutura, personagens, ritmo, voz narrativa — ou apenas quer saber o que passa na cabeça de alguém que passa tempo demais tentando escrever sobre quem não existe —, puxa uma cadeira.

E se não for pedir muito, traga um salgado. Dos bons. Nada de coxinha com recheio tímido. Aqui a gente quer crocância e intensidade — no texto e na massa.

Até a próxima.

Com açúcar e com afeto,

A. S. (aquele mesmo que fica escrevendo na mesinha da loja de conveniência)