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1/17/2026

Sexo e Farofa

Eu sempre acreditei que o destino tivesse senso de humor, mas não imaginava que fosse do tipo sacana. Daqueles que te colocam num supermercado às 23h47 de uma terça-feira para comprar duas coisas que, juntas, denunciam imediatamente uma pessoa: camisinha e farofa.

Não era nem a farofa de marca séria, aquela com orgulho de raiz e sódio suficiente para empalhar um javali. Era farofa temperada. Com bacon artificial. O que me transformava oficialmente no tipo de homem que perdeu o rumo da própria vida — e nem percebeu.

Eu podia explicar. Juro que podia. A camisinha era óbvia — prevenção, civilidade, pacto honesto com a Organização Mundial de Não Arranjar Filhos e Doenças. Mas a farofa… ah, a farofa tinha história. Tinha promessa. Tinha saliva. Porque nada diz mais sexo real do que a fome que sobra depois. E alguém, algumas horas antes, tinha sussurrado no meu ouvido:

— Depois eu quero farofa. Daquela bem porca.

E aí, meu amigo, quando alguém fala isso no teu ouvido com a boca quente de vontade, você aceita. Você aceita qualquer coisa. Você atravessa a cidade, abandona princípios morais, trai sua lombar, esquece a dignidade no porta-luvas. Vai. Faz. Compra. Farofa. Acontece.

Foi assim que eu parei no Extra da Ricardo Jafet às 23h47, iluminado por neon cansado, cercado por gente que já tinha desistido do amanhã. Carrinhos rangendo como lamentos existenciais. O inferno tem ar-condicionado e fica aberto até meia-noite.

Aí ela apareceu.

Jeans preto. Camiseta branca. Cabelo preso num coque bagunçado que parecia de propósito. Um tipo de beleza simples, perigosa, dessas que não pedem atenção — pegam. Corpo direto ao ponto: fome, curiosidade e algo na postura que dizia eu sei entrar e sair de histórias sem me queimar.

Ela empurrava o carrinho com quatro itens essenciais da vida adulta suspeita:
— vinho barato,
— papel higiênico folha dupla,
— leite condensado,
— e um pacote de pão de forma, como quem declara ao mundo: “não tenho mais ilusões”.

Ela olhou pra mim. Depois para minha mão. Depois para o que eu carregava. E sorriu — o sorriso clínico de quem diagnostica alguém sem piedade.

— História interessante aí, hein.

— Longa demais pra contar — respondi. — Mas posso garantir que envolve moralidade duvidosa, sódio e escolhas erradas.

Ela se aproximou. De perto, tinha olhos que falavam dialetos antigos de luxúria funcional. Gente que já viveu. Gente que não perde tempo com frescura emocional.

— Histórias longas são as melhores. Dá pra resumir?

— Em três frases.

— Manda.

— Promessa carnal. Falta de planejamento. Farofa.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Isso não são três frases. Isso é um convite.

Foi ali, entre sacos de carvão e promoção de salsicha, que percebi: o universo às vezes abre portais. Pequenos portais lubrificados.

— E você? — perguntei. — Vai levar leite condensado pra quê?

— Eu não explico nada depois das onze da noite — ela disse. — Mas posso mostrar.

Fudeu. Eu estava dentro. Não havia mais retorno possível. Desejo não tem freio ABS.

Ela se aproximou mais. Perigoso perto. Um cheiro limpo de banho recente misturado com pele quente e intenção. Falou baixo:

— Você cozinha?

— Faço o básico.

— Ótimo. Eu transo o básico. A gente combina.

Eu ri. Ela não.

E foi assim que o Extra virou prelúdio, o caixa automático virou cúmplice e a madrugada se abriu como perna impaciente.

Mais tarde, no chão da cozinha dela — azulejo frio, boca quente, mãos erradas nos lugares certos — descobri duas verdades absolutas:

1. Tesão é logística.

2. Farofa não é acompanhamento — é destino.

****

Ela mordeu meu lábio como quem assina contrato e disse no meu ouvido:

— Joga a farofa. Eu quero suja. Quero indecente. Quero desgraça.

E eu fiz. Porque há pedidos que vêm de regiões da alma onde Deus não fiscaliza.

Depois, suados, ofegantes e vivos de verdade pela primeira vez na semana, dividimos a mesma colher direto do saco. Ela, nua, mastigando farofa como pornografia antropológica, virou pra mim e disse:

— Isso não foi sexo casual. Isso foi nutrição.

Algumas pessoas acreditam no poder do amor. Outras, no destino.

Eu? Eu acredito no Extra da Ricardo Jafet.

Porque depois daquela noite aprendi: sexo passa; farofa fica.


Continua.
A vida é suja e deliciosa.

Série SEXO E FAROFA
(uma ode à carne, ao caos e à lucidez brasileira)

11/26/2025

A Crise Que Virou Montanha-Russa Sem Trilho


Se tem uma coisa que me diverte — e me desespera, mas com aquele desespero gostoso de quem joga dominó num velório — é o entusiasmo da imprensa nacional em praticar arapucas linguísticas como se fossem esporte olímpico. Hoje, por exemplo, descobri que crises no Brasil agora são escaláveis. Não no sentido de ficarem maiores, veja bem, mas no sentido literal de você poder escalar a danada, como quem sobe o Pico do Jaraguá com uma garrafinha d’água e a dignidade nas mãos.

A manchete da vez do UOL diz, rufem os tambores desafinados:


“Motta e Alcolumbre escalam crise e não vão à cerimônia de sanção do IR.”

Escalam.

Crise.

É disso que eu tô falando.

Nenhuma corda, nenhum mosquetão, nenhum guia alpino. Só a boa e velha preguiça intelectual que faz o redator olhar para o inglês to escalate e pensar: “Puxa, é bonito, vou usar”. O problema é que, no português, o verbo não significa isso. No português, “escalar a crise” parece mais “tentar subir nela”, o que, convenhamos, é uma imagem excelente para a política brasileira: um bando de gente tentando se agarrar a uma parede lisa, escorregadia, e ainda batendo no peito como se fosse natural.

Mas erro é erro, mesmo quando sai no jornal — aliás, principalmente quando sai no jornal. É por isso que eu digo: o decalque é a mula-sem-cabeça do texto. Não serve pra montar, não serve pra puxar, não sabe nem pra onde vai. Só aparece pra assustar a língua e deixar rastros de ferrugem sintática.

Em vez de “escalar”, tínhamos opções honestas, de pedigree, domésticas, criadas com ração nacional e sem influência do dólar: “agravam”, “acentuam”, “ampliam”, “esticam a corda” — mas não, o redator preferiu o inglês requentado, enfiado no microondas da pressa.

E assim seguimos, tropeçando em manchetes cada vez mais bilíngües, cada vez mais semânticas de aplicativo, cada vez mais com cara de quem estudou meia página de gramática e achou que era poliglota. A língua, coitada, só observa do canto, com aquele olhar de tia velha que sabe que vai sobrar pra ela limpar a bagunça.

No fim das contas, Motta e Alcolumbre não escalaram crise nenhuma. Quem escalou — e escorregou — foi o próprio UOL. E caiu feio.

Mas tudo bem. Amanhã tem outra manchete. E outra corda bamba. E outro redator se achando alpinista sem ter aprendido a amarrar o cadarço.

Porque, no Brasil, até a crise é climbable. Ou quase.

8/23/2025

O lupanar* bem familiar da dona Sebastiana

– Pois esse meu amigo tinha uma espécie de tia, uma velhinha que eu conhecia de vista. Ela pintava de vez em quando no boteco dele pra comer mocotó numa travessa enorme, com pimenta vermelha e uma jarra de vinho tinto pra rebater.

– Ô, velha porreta!

– Um dia eu estava tomando cerveja com o cara e ele me contou essa história: a velhinha era aposentada e tinha trabalhado muito tempo num lugar onde havia muitas oportunidades de conhecer gente nova. Ela saiu de lá com uma porção de amigos, amigas, conhecidos, camaradas, o escambau, e resolveu adotar um meio de vida bem peculiar. Ela começou a “agenciar” encontros entre seus amigos e suas amigas. Normalmente eram velhinhos que estavam a fim de uma bimbada. Então ligavam para a casa dela, pedindo uma mulher assim assado, ou já pediam direto uma que fosse preferida deles. Então a tia ligava para a mulher e marcava uma ponta pra dali a dois, três dias.

– Mas que espécie de mulheres faziam esse tipo de programa?

– Aí que me caiu a bunda de espanto: eram mulheres casadas, algumas muito bem casadas. Tinha uma que era mulher de um fazendeiro, um puta mulherão, que ia dar o rabo porque gostava. De dinheiro ela não precisava. Só dá pra imaginar que o maridão não dava no couro, então ela ia lá pra levar ferro.

– Que coisa...

Yeah, sei que, um dia, um velhinho foi lá pra "dar de comer pro ganso". Chegou, tomou um uisquezinho na sala, sentado no sofá. A mulher que ele ia comer já tava lá, sentada numa poltrona. Na outra poltrona, a tia fazia tricô. Conversaram amenidades por meia hora, depois chegou a hora do vamo-vê. Foram os dois pro quarto, e a tia continuou no tricô, mas deu uma olhada discreta no relógio, no caso do velho passar do horário. Muy bien, de repente vem a gritaria de dentro do quarto: “ai ai ai, socorro! aaaaaai, aaaaai!”

– Putz, que foi que houve?

– A velha abriu a porta e se deparou com a cena: a mulher se torcia feito cobra doida debaixo do velho, que estava MORTO em cima dela. O cara tinha tido um troço no coração enquanto comia a donzela, e foi fulminante.

– Porra, isso é que é jeito de morrer!

– Sei que tiraram o velho de dentro daquela buceta e deitaram ele de costas. O pau do véio ainda tava de pé, feito mastro de bandeira. A puta começou a chorar, dizendo: “Dona fulana, ele tá morto, ele morreu, e agora?”. A véia disse: “Olha, põe a tua roupa e vai embora, eu me viro com esse presunto.”. Foi o que a mina fez. Então a velha se sentou na sala, pegou um uísque e começou a pensar no que fazer...

– Situação de bosta, hein?

– Sim, ela não podia chamar a polícia, porque ia acabar presa como assassina ou cafetina, ou os dois. Se livrar do presunto era mais arriscado e suspeito que chamar a polícia. Meio desesperada, ela ligou pra uma irmã, e disse: “Vem pra cá que tem um pepino dos grandes”. Quando a irmã chegou e soube do caso, se sentou e começou a pensar também. Sei que tiveram uma idéia...

– Que idéia?

– Pegaram o defunto, deram um banho e vestiram. Colocaram ele sentado na sala, com um copo d'água na mão. Na carteira dele, acharam um número de telefone e discaram. Era do trabalho da filha do véio. Aí a tia disse: “Ah, dona fulana, seu pai está aqui na minha casa. ele bateu na porta e disse que estava se sentindo mal, e pediu um copo d’água. Eu dei o copo d’água e vi que ele estava mal mesmo. Perguntei se ele queria entrar e sentar um pouco. Ele disse que sim e pediu pra ligar pro seu número. Por favor, venha pra cá que seu pai está mal!”

– Putz! E colou a história?

– Bom, meia hora depois chega a família em peso. Cercam o presunto no sofá. É claro que levam meio segundo pra descobrir que o velho estava morto. Quando o filho do cara diz isso, a tia faz o maior escândalo, e desata a chorar. Sei que começaram a consolar a tia! Agradeceram profusamente o fato de ela ter socorrido o velhinho, disseram que ele era cardíaco, com meia dúzia de pontes de safena. A história colou mais do que bem. A família acabou amiga da tia, deram presentes pra ela, inclusive deram dinheiro!

– Não acredito... e nunca souberam?

Nyet. Nunca desconfiaram que a tia armava bimbada pro véio... hehehe...

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(*) "Lupanar" é "puteiro", bando de ignorantes!