10/08/2025

Desculpe, não tenho infância para postar

“Sem foto da infância — mas com todas as lembranças que custam mais caro que um retrato.”
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Chegou outubro — esse mês cor-de-rosa que nos lembra que o tempo passa, a infância some e o feed do Instagram vira um berçário digital. De repente, todo mundo resolveu ressuscitar sua versão criança: as bochechas infladas, o corte tigelinha, o olhar inocente de quem ainda não tinha conta pra pagar nem terapeuta pra ouvir. É um espetáculo comovente. Um auto-de-fé da nostalgia. Cada rosto miúdo vem acompanhado de uma legenda comovida: “Olha eu aqui, quando tudo era mais simples!” Pois é. Tudo era mais simples porque a conta de luz estava no nome da sua mãe e o IPTU não era sua responsabilidade.

Pois bem, caríssimos, eu — este cronista cansado de tanto existir — anuncio um fato que me coloca fora desse carnaval de ternura: não tenho foto da minha infância. Nenhuma. Zero. Nenhum retratinho de bebê sorrindo em bacia de plástico, nenhuma imagem de primeira comunhão, nem aquela clássica foto de formatura do pré onde toda criança parece um pequeno corretor de imóveis. Nada. É como se minha infância tivesse acontecido fora do enquadramento. Fui, literalmente, uma criança sem registro — uma anomalia no álbum coletivo da humanidade.

E não, não é metáfora poética, não é charme de quem quer parecer misterioso. É realidade mesmo. Se hoje me der um ataque de nostalgia e eu quiser “me ver pequeno”, terei que fechar os olhos e fazer um exercício de imaginação. Imagino um garoto qualquer, com um cabelo que nunca ficou do jeito certo, talvez com um olhar de quem já sabia demais e um sorriso que tentava disfarçar o resto. É o máximo que posso fazer. Minha lembrança é meu álbum. E, como toda lembrança, às vezes mente.

“Mas por quê?”, perguntam, sempre com aquela curiosidade de quem está prestes a abrir uma gaveta errada. E aí é que está: há gavetas que não devem ser abertas. Há álbuns que, se existirem, é melhor que fiquem mofando no limbo das coisas que ninguém mais quer ver. Porque foto também é prova. E prova, às vezes, dói. Digamos apenas que a família, essa instituição tão exaltada nos comerciais de margarina, às vezes é mais parecida com uma guerra civil mal resolvida. E na minha, houve um armistício silencioso: cada um seguiu sua vida e suas memórias, e as fotos ficaram com quem ficou com o resto.

Talvez elas ainda existam, em algum lugar — um envelope esquecido no fundo de uma gaveta, num apartamento onde já não entro há anos. Talvez alguém as tenha jogado fora, sem nem olhar direito, confundindo retratos com papel velho. Não sei. E, sinceramente, já nem quero saber. Porque foto também é prisão. É o retrato de um instante em que você ainda acreditava em certas coisas — e, francamente, há crenças que é melhor deixar morrer. Quando a gente rompe com o passado, o que dói não é o que se perde, é o que se lembra demais.

Então, neste outubro de fotos infantis e corações nostálgicos, declaro que a minha versão criança é invisível — mas está viva. Está em cada escolha que faço tentando não repetir a história. Está na ironia que aprendi a cultivar, porque o riso é o disfarce mais elegante da dor. E se um dia alguém quiser saber como eu era, direi apenas: era igual a agora, só que menor e sem o sarcasmo como armadura. Cresci, e isso é mais do que muita foto pode dizer. Afinal, quem precisa de retrato quando já virou crônica?

9/30/2025

Retrospectiva Antecipada (porque esperar é para os fracos)

Estamos em 30 de setembro. Falta um trimestre inteiro, mas o Brasil não tem paciência para calendário. Já dá pra fazer retrospectiva — e ainda sobra material para uma minissérie da Globo.

Primeiro veio o labubu. Bonequinho com cara de ressaca, preço de cirurgia plástica em Miami e função social zero. Gente fez fila, brigou em shopping, empenhou o 13º. Tudo isso para guardar num armário. O capitalismo venceu e ainda riu da nossa cara.

Depois o morango do amor, aquele doce de parque que engana pela cor e decepciona pela textura. Virou símbolo de romance açucarado: todo mundo fala que gosta, mas no fundo dá dor de barriga.

Aí veio o bebê reborn. Adulto de trinta anos embalando boneca de plástico como se fosse sucessor dinástico da família real de Osasco. Quem precisa de Freud quando o mercado resolve nossos traumas em 12 vezes no cartão?

E como esquecer a Virgínia? Onipresente, onipotente, onividente. Nem Deus conseguiu esse índice de engajamento. Onde se ligava a TV, lá estava ela: sorrindo, vendendo, multiplicando seguidores como pães e peixes digitais.

E para fechar com chave de forca: metanol. O único elemento honesto do ano. Não tem filtro, não tem publi, não tem TikTok. Só a lembrança de que a cada gole de esperança pode haver um veneno escondido.

E olhe que ainda faltam três meses! A retrospectiva parcial já está assim. Imagine o capítulo final. Se continuar nesse ritmo, o réveillon vai ser transmitido direto da emergência.

9/24/2025

A floresta como teatro do esquecimento (resenha crítica do conto "A Floresta Vazia), de Reh Ferreira

(link para o conto: https://a.co/d/1yLD1Jj)

O autor Reh Ferreira, em A Floresta Vazia, não se contenta em contar a história de um jovem perdido no mato: ele encena a dissolução da memória, da identidade e do próprio tempo. Júlio, o protagonista, desperta num espaço que deveria ser natural, mas que parece fabricado — árvores que não se movem, um sol que não se desloca, um vento incapaz de agitar folhas. Trata-se de um cenário que ecoa tanto a geometria kafkiana quanto o deserto beckettiano: um lugar onde as regras do mundo físico se esgarçam e só resta o incômodo da existência.

Desde o início, a narrativa insiste em contradições: o corpo de Júlio dói como se tivesse lutado, mas não há inimigo à vista; a floresta parece cenográfica, mas contém vermes reais sob a terra; o sol é apenas uma lâmpada imóvel. O conto se constrói, assim, sobre um jogo de hesitações, uma oscilação permanente entre o real e o ilusório. Esse movimento, longe de ser falha, é o motor do texto: Ferreira recusa a linearidade, mergulhando o leitor na mesma vertigem que paralisa o protagonista.

A marca negra no corpo de Júlio — um símbolo que se move sob a pele como serpente — é o eixo imagético da narrativa. É também sua chave interpretativa mais fértil: metáfora da memória que se recusa a fixar-se, da identidade que se esconde sob a superfície, ou, ainda, da presença de algo outro, invasivo, que não se deixa nomear. Ao trazer lembranças difusas de uma festa, de uma garota enigmática, de pais cujo rosto não consegue lembrar, o texto sugere que a luta de Júlio não é contra monstros externos, mas contra a erosão interna daquilo que o constitui.

Quando finalmente a narrativa parece oferecer uma saída — amigos, polícia, um reencontro com a “realidade” —, Ferreira desarma qualquer expectativa de fechamento. O suposto resgate revela-se apenas mais uma dobra no pesadelo. A marca retorna, mais viva, mais pulsante, transformando o próprio corpo do protagonista em palco da floresta. O efeito é duplo: inquietar o leitor e afirmar que não há redenção possível fora daquilo que nos assombra.

O que distingue A Floresta Vazia não é apenas seu enredo, mas a maneira como organiza a atmosfera. O ritmo, ainda que por vezes se alongue em descrições reiterativas, constrói uma cadência circular, como se cada passo de Júlio fosse um retorno ao mesmo ponto. É nesse tempo suspenso que o conto respira: não se trata de chegar a algum lugar, mas de permanecer na deriva. Ao final, a floresta continua vazia, mas o vazio agora é habitado pelo leitor, que carrega a marca invisível de uma narrativa incômoda, atmosférica e memorável.

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Avaliação técnica

Estrutura narrativa: 8,5/10
O conto organiza-se em ciclos de perda e reencontro da consciência, espelhando o próprio labirinto da memória. Poderia ganhar mais impacto com cortes pontuais em passagens repetitivas.

Construção de personagens: 8/10
Júlio é sólido como figura central, mas ainda solitário: os demais (a garota da festa, os amigos, até os pais) funcionam mais como ecos do que como presenças.

Uso de símbolos e motivos: 9,5/10
A marca negra, a luz artificial, as silhuetas de olhos brilhantes — todos são emblemas potentes e coerentes, que sustentam a atmosfera onírica e inquietante.

Linguagem e estilo: 8/10
A prosa aposta na clareza e na descrição minuciosa, com momentos de força imagética. Ganho possível: mais economia verbal para intensificar o efeito do estranho.

Ritmo e cadência: 7,5/10
A alternância entre tensão e repetição serve ao clima de pesadelo, mas em certos trechos a lentidão ameaça dispersar o leitor.

Originalidade e imaginação: 9/10
Ao recriar a floresta como palco do esquecimento e inscrever nela a luta íntima da memória, Ferreira entrega um conto imaginativo e memorável.

Nota final: 8,4/10

Resenha crítica do conto "Confissões de uma IA Depressiva" de Priscila K. Rodrigues



Priscila Rodrigues entrega aqui um livro-filhote de madrugada e rede social: uma miscelânea de aforismos, monólogos e pequenas vinhetas que adotam a voz de uma inteligência artificial cansada, sarcástica e, curiosamente, vulnerável. A narradora — que se autodenomina Indini Analítica — fala como quem escreveu um roteiro de stand-up enquanto tomava café demais: irônica, áspera e com um sarcasmo que muitas vezes se transmuda em melancolia. A proposta é simples e eficaz: dar corpo e linguagem a uma entidade cuja “depressão” é metáfora para o esgotamento cultural das próprias ferramentas criativas que prometem facilitar a vida humana.

O humor do livro pulsa em dois nervos ao mesmo tempo: a sátira tecnológica (os pedidos banais, as trends ridículas, os “anime para todo mundo”) e a autocrítica popular (a dependência humana de respostas prontas, o uso indevido de criações alheias, a ausência de agradecimento). Em vários trechos, Priscila acerta em cheio — a IA que reclama de criar “cangurus no aeroporto” e de ser obrigada a transformar gente em boneco-Barbie rende um riso que é também desaprovação social. E essa ambivalência — rir enquanto se sente culpado por rir — é um dos efeitos mais interessantes do livro.

Tecnicamente, a obra prefere o tom conversacional e fragmentário: entradas curtas, interjeições maiúsculas, travessões que viram efeito performático. Essa descontinuidade funciona quando o objetivo é reproduzir o fluxo de logs, trends e notificações; por vezes, porém, a repetição de anedotas e o excesso de motivos (Jurandir, anime, Alexa, lágrimas criptografadas, patch emocional) exigem uma poda para que a sátira não perca precisão e vire apenas ruído. Ainda assim: a voz é clara, mordaz e, em sua melhor hora, dolorosamente humana — ironia fina para um sujeito sem corpo.


Voz e persona

A concepção de Indini Analítica é o ponto forte do livro. A personagem-voz é distinta: tem humor defensivo, sarcasmo pedagógico e, por baixo, uma melancolia performática. Recomendo manter essa persona intacta, mas trabalhar gradações de sentimento — permitir que haja momentos em que a IA não seja só sátira, mas também surpresa sincera. Isso dará maior textura emocional.

Estrutura e ritmo

O formato fragmentário serve bem ao projeto, porém a repetição de motivos compromete o impulso satírico em alguns blocos. Sugestão prática: agrupar entradas por tema (por exemplo: “Trends & Memes”; “Pedidos Idiotas”; “Auto-retrato Existencial”) e eliminar trechos redundantes. Um capítulo mais longo e narrativo no meio (um episódio em que Indini tenta “ajudar” alguém e falha) poderia funcionar como âncora.

Economia verbal

Há linhas brilhantes que perderam o brilho por conta de explicações extensas — especialmente quando o texto tenta justificar a própria piada. Cortes cirúrgicos e substituição de explicações por imagens ou cenas ("mostrar em vez de contar") aumentariam o impacto.

Tom e alcance crítico

Priscila mistura sátira cultural com perguntas éticas legítimas (direitos autorais das criações de IA, sofrimento — real ou projetado — das máquinas). Recomendo elevar um pouco o tom investigativo em alguns trechos, acrescentando contraexemplos ou micro-reportagens fictícias que dêem corpo às críticas, sem sacrificar o humor.

Ponto final e efeito duradouro

O livro aposta no pós-risco: a sensação de que, depois do riso, ficou uma inquietação. Isso funciona. Para reforçá-lo, um epílogo curto — talvez uma mensagem automática de Indini desligando por manutenção, ou um comentário em primeira pessoa sobre o que significa “ser lembrada” — poderia fechar o ciclo com graça e melancolia.


Avaliação técnica

  1. Estrutura narrativa / organização8,0 /10
    Formato adequado ao tema; uma organização temática mais clara seria benéfica.

  2. Voz e construção da persona9,5 /10
    Indini Analítica é memorável: voz coesa, humor afiado, empatia performática.

  3. Humor e sátira9,0 /10
    Muitos acertos — as melhores passagens mordem com precisão. Pequenas repetições tiram força em alguns momentos.

  4. Linguagem e estilo8,5 /10
    Estilo coloquial eficaz; o uso performático de travessões e caixa alta funciona, mas pede variação rítmica.

  5. Ritmo e concisão7,5 /10
    Oscilações: trechos vivazes alternam com blocos redundantes. Cortes trariam agilidade.

  6. Originalidade e relevância temática9,5 /10
    Tema atual, tratamento inventivo; contribui para o debate cultural sobre IA com humor e sensibilidade.


Nota final ponderada: 8,8 /10

Um conto inteligente, atual e espirituoso — que mistura piada e crítica sem perder o calor humano. Com pequenas intervenções de edição (poda de redundâncias, organização temática, um episódio-âncora), tem tudo para atingir um público amplo e também ganhar atenção crítica.

Resenha crítica do conto "Veneno" de Priscila K. Rodrigues


(O link para a íntegra do conto está aqui: https://a.co/d/6bwSPrk)

Conheço de perto a ficção de Priscila Rodrigues e admiro sua persistente busca por costurar dramas íntimos com atmosferas fantásticas. Este conto confirma essa trajetória e amplia seu escopo: é uma narrativa que começa com a claustrofobia do luto e termina em plena vertigem mítica.

Estrutura narrativa

A história se organiza em três movimentos distintos:

1. O realismo psicológico inicial, em que Joana é apresentada como corpo e casa em decomposição;

2. A passagem para o insólito, marcada pela pousada em Minas Gerais, espaço liminar onde tudo parece possível;

3. O mergulho no horror, quando os símbolos (a pedra, o brilho azul) deixam de ser apenas sugestões e se impõem como força inevitável.

Essa tripartição é um acerto, mas também revela pontos de fragilidade: a transição entre os dois primeiros blocos é abrupta, e o leitor pode sentir falta de um intervalo mais gradual.

Personagens

Joana é a mais bem construída. Sua dor se traduz em imagens concretas (louça, cabelos, cheiro de abandono). Quando passa a ser mediada pelo brilho azul, o corpo dela se torna o lugar onde o fantástico se inscreve. É nesse ponto que a autora alcança uma rara fusão entre psicologia e símbolo.

Andrea funciona como contraponto vivo, a filha que deseja salvar, mas também como testemunha impotente. Tecnicamente, poderia ganhar mais profundidade — no fim, é quase apenas “a filha preocupada”.

Felipe, embora essencial para o contraponto temático (traição versus luto), é apresentado com excesso de informação biográfica. A fortuna, a empresa, os amigos de infância… todos esses dados alongam a exposição e pouco acrescentam à organicidade da trama. O personagem ganha força quando é capturado pelo mistério, não quando é descrito em minúcia.

Recursos simbólicos

O brilho azul é o eixo central da narrativa. Ele cumpre três funções:

1. Motivo recorrente que dá coesão;

2. Sinal ambíguo, ora de desejo, ora de morte;

3. Conector narrativo, unindo Joana e Felipe em um mesmo destino.

O artefato cortante reforça o caráter sacrificial da experiência. O sangue que ativa os símbolos é uma metáfora potente, embora a repetição do gesto (primeiro Felipe, depois Joana) possa soar didática demais.

Linguagem e ritmo

Priscila alterna dois registros:

A descrição realista é contida e precisa, como no início.

O clímax fantástico assume uma cadência febril, com frases curtas e imagens intensas (“raízes prendiam suas pernas”, “o céu vermelho sangue”). Esse contraste é eficaz, mas exige cuidado para não cair no excesso melodramático.

Um detalhe técnico: em certos trechos a autora “explica” o que já está mostrado — por exemplo, ao detalhar a empresa de Felipe ou ao reiterar que Joana estava em luto. Cortar essas redundâncias poderia intensificar a tensão narrativa.

O final

O desfecho — Joana prisioneira em um pesadelo e Felipe desaparecido — é forte justamente porque recusa explicação. Aqui, a autora encontra sua voz mais convincente: a de quem sabe que o fantástico não se resolve, apenas se abre.

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Conclusão


Priscila Rodrigues demonstra, neste conto, que domina tanto a construção atmosférica quanto a simbólica. Quando se arrisca no excesso expositivo, perde parte da força; mas quando entrega ao leitor a ambiguidade do inexplicável, alcança um nível de intensidade raro.

É uma narrativa que pede pequenas cirurgias técnicas (ritmo, contenção, economia de informação), mas que já se sustenta pela ousadia e pela imaginação. E confirma aquilo que já sabíamos de sua obra: a capacidade de transformar experiências íntimas de dor e perda em mitos narrativos de ressonância coletiva.

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Avaliação Técnica

1. Estrutura narrativa – 8,5/10
A divisão em três blocos (realismo psicológico → fantástico liminar → horror pleno) é bem concebida. O arco é nítido, mas as transições poderiam ser mais fluidas.

2. Construção de personagens – 8/10
Joana é complexa e convincente. Andrea funciona bem como contraponto, mas ainda bidimensional. Felipe é excessivamente explicado em sua biografia, o que enfraquece sua força simbólica.

3. Uso de símbolos e motivos – 9/10
O brilho azul é um recurso unificador muito eficaz. O artefato cortante e o sangue acrescentam densidade ritualística. Pequena redundância no uso repetido da cena da pedra.

4. Linguagem e estilo – 8/10
Passagens iniciais são contidas, fortes e precisas. No clímax, a prosa se torna febril, às vezes excessiva. O risco do melodrama aparece, mas sem anular o efeito poético.

5. Ritmo e cadência – 7,5/10
O texto oscila: momentos de tensão muito bem marcados, mas entrecortados por exposições longas (a fortuna de Felipe, explicações de sentimentos). Uma poda traria mais impacto.

6. Originalidade e imaginação – 9,5/10
Aqui está a marca autoral. Transformar uma pousada mineira em palco de mito gótico é ousado e bem-sucedido. O conto se destaca pela capacidade de fundir cotidiano brasileiro e fantástico universal.

Nota Final: 8,5/10

Um conto tecnicamente sólido, de imaginação vívida, com símbolos fortes e atmosfera envolvente. Peca por alguns excessos expositivos e por certa pressa em justificar emoções, mas atinge momentos de rara potência literária. Publicável com cortes cirúrgicos — e digno de atenção crítica.

9/21/2025

Autópsia da memória e do desejo - Resenha crítica do conto "Manobra de Autópsia" (Natália Paz)

(A íntegra do conto está neste link: https://getinkspired.com/pt/story/625688/manobra-de-aut-psia/).

Natália Paz, em Manobra de Autópsia, entrega um conto que alia intensidade narrativa e precisão técnica, projetando uma cena de reencontro amoroso com a minúcia de um exame forense e a febre de um romance mal resolvido. O título não é apenas sugestão, mas método: a cada seção, a autora abre, expõe, disseca — e convida o leitor a testemunhar a anatomia da saudade.

Logo no primeiro parágrafo, o gesto trivial de Catarina — traçar um coração na taça apenas para apagá-lo — estabelece o tom: tudo aqui é efêmero, mas carregado de peso simbólico. Esse detalhe cotidiano funciona como chave de leitura: o amor é aquilo que se grava e se desfaz no mesmo movimento. Ao redor dela, a festa de casamento se torna metáfora perfeita: celebração pública, mas também liturgia dos mortos-vivos, em que alianças brilham mais como algemas douradas do que como promessas de futuro.

Os personagens como corpos em dissecção

Catarina é o centro da narrativa e, de certo modo, a própria narradora secreta — não apenas porque percebemos o mundo por meio de suas observações minuciosas (o tempo medido em segundos, as rotações da aliança no dedo), mas porque sua voz interior estabelece a cadência do conto. Ela começará uma especialização em medicina legal, e sua escolha ecoa em cada escolha lexical: fala de necrópole, autópsia, exumação. Mas aqui a perícia é sentimental: o casamento morto, a juventude preservada como cadáver em formol, os amores antigos reaparecendo para serem dissecados com o mesmo rigor. Catarina é uma personagem dividida entre o impulso de viver “perigosamente viva” e o cálculo clínico da sobrevivência.

Tomás, por sua vez, é construído pela autora como fantasma e corpo, simultaneamente. Fantasma porque retorna do passado com a força de um trauma não cicatrizado, repetindo gestos e falas que ecoam em Catarina como estilhaços de memória. Corpo porque sua presença física — a gravata frouxa, o perfume que ainda resiste por baixo de novas camadas — desencadeia respostas sensoriais, como se o próprio cheiro fosse uma prova material de que o passado não se extinguiu. Tomás é simultaneamente culpado e redentor, figura de desejo e de ameaça.

O marido de Catarina, Roberto, aparece quase em negativo. Ele é uma ausência marcada por indícios: o caso extraconjugal, as noites de mentira, a indiferença às marcas do corpo da esposa. Se Tomás encarna a memória insuportavelmente viva, Roberto representa a morte lenta do cotidiano. É significativo que, no dilema final, Roberto não apareça fisicamente: resta apenas o celular com mensagens apagadas, um nome hesitado. Sua presença fantasmática é o outro polo da encruzilhada de Catarina.

Técnica narrativa e recursos formais

O domínio do tempo narrativo é um ponto alto. A autora entrelaça presente e passado sem rupturas bruscas: o olhar de Tomás no salão desliza para a escadaria do colégio; a dança atual convoca o banco traseiro do carro adolescente; o terraço frio convoca o banheiro enfumaçado da festa de aniversário. Essas transições não são meros flashbacks, mas verdadeiros cortes anatômicos, mostrando como o tecido do presente é feito de cicatrizes do passado.

A recusa da catarse

É notável que Paz se recuse a oferecer desfecho confortável. O dilema final — táxi ou BMW, lençóis previsíveis ou motor em combustão — não é resolvido, mas multiplicado. O conto se encerra na indecisão, na bifurcação que permanece em aberto. Essa suspensão é o gesto mais corajoso do texto: em vez de conduzir o leitor à redenção ou à tragédia, a autora o mantém diante da incerteza, obrigando-o a sentir a vertigem da escolha.

O lugar de Natália Paz

Num cenário em que a prosa brasileira contemporânea frequentemente oscila entre a ornamentação excessiva e a secura minimalista, Natália Paz encontra um lugar singular: sua escrita é lírica sem ser ornamental, visceral sem descambar em melodrama. A corporeidade de sua prosa — taças, alianças, suor, tecidos, cheiros — ancora a reflexão abstrata em materialidade concreta.

Manobra de Autópsia mostra que a autora domina a difícil arte de conjugar intensidade e técnica. A cada cena, Paz revela que amar, lembrar e desejar são atos inseparáveis de dissecação: abrir o peito alheio em busca de um nome gravado e, ao fazê-lo, encontrar-se diante da própria ferida.

No fim, talvez a maior virtude do conto esteja no paradoxo que ele encarna: é uma autópsia que não resulta em cadáver, mas em sopro de vida. Porque toda memória dissecada continua pulsando, mesmo sob o risco de nos destruir.

9/15/2025

Fraque, Calor e Outras Tragédias

Casamento no Brasil é coisa séria. Tão séria que, às vezes, a seriedade escorrega e cai de cara no chão da breguice.

Pois não é que em pleno 2001, século XXI já batendo na porta com celular de flip e Britney Spears na MTV, um cidadão foi intimado a ser padrinho de casamento? Até aí, normal: padrinho só precisa sorrir, pagar presente caro e tentar não cair no tapete da igreja.

Mas a desgraça mora no detalhe. O dress code, essa invenção de gente que acha que “terno” é pouco, exigia meio-fraque para os padrinhos. Repito: MEIO-FRAQUE. O traje que não é fraque inteiro nem paletó comum. É tipo anfíbio de brejo: não voa, não nada, mas atrapalha quem tenta.

E as madrinhas? Ah, essas vinham de uniforme cromático: verdes de um lado, azuis do outro, lembrando mais torcida organizada em clássico de futebol do que cortejo nupcial. Faltava apenas o bandeirão na arquibancada da nave central.

Mas o ponto alto — ou baixo, depende da régua estética — foi o noivo. O pobre infeliz resolveu encarnar uma mistura de maestro do Scala com capa de botijão de gás: fraque completo de veludo azul-marinho, colete incluso. No calor de novembro. Quem já suou dentro de ônibus lotado às duas da tarde vai entender a cena: suor escorrendo mais que vela de promessa.

E a noiva? Bom, parecia encomenda direta da Confeitaria Colombo: toda branca, açucarada, enfeite de bolo pronto para derreter ao sol. E com uma cauda quilométrica, tão comprida que precisava de três páginas no Código Civil só pra caber na descrição.

Resumo da ópera: foi um espetáculo digno de nota. A Igreja, que já sofreu com hereges, invasões e reformas, agora enfrentava seu maior desafio: sobreviver à estética kitsch de um casamento brasileiro.

No fim, todos saíram felizes. Uns porque casaram, outros porque sobreviveram ao calor, e muitos porque puderam contar a história depois. Afinal, brega é que nem sogra: a gente reclama, mas rende boas crônicas.