9/24/2025
A floresta como teatro do esquecimento (resenha crítica do conto "A Floresta Vazia), de Reh Ferreira
Resenha crítica do conto "Confissões de uma IA Depressiva" de Priscila K. Rodrigues
O humor do livro pulsa em dois nervos ao mesmo tempo: a sátira tecnológica (os pedidos banais, as trends ridículas, os “anime para todo mundo”) e a autocrítica popular (a dependência humana de respostas prontas, o uso indevido de criações alheias, a ausência de agradecimento). Em vários trechos, Priscila acerta em cheio — a IA que reclama de criar “cangurus no aeroporto” e de ser obrigada a transformar gente em boneco-Barbie rende um riso que é também desaprovação social. E essa ambivalência — rir enquanto se sente culpado por rir — é um dos efeitos mais interessantes do livro.
Tecnicamente, a obra prefere o tom conversacional e fragmentário: entradas curtas, interjeições maiúsculas, travessões que viram efeito performático. Essa descontinuidade funciona quando o objetivo é reproduzir o fluxo de logs, trends e notificações; por vezes, porém, a repetição de anedotas e o excesso de motivos (Jurandir, anime, Alexa, lágrimas criptografadas, patch emocional) exigem uma poda para que a sátira não perca precisão e vire apenas ruído. Ainda assim: a voz é clara, mordaz e, em sua melhor hora, dolorosamente humana — ironia fina para um sujeito sem corpo.
Voz e persona
Estrutura e ritmo
Economia verbal
Tom e alcance crítico
Ponto final e efeito duradouro
Avaliação técnica
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Estrutura narrativa / organização — 8,0 /10Formato adequado ao tema; uma organização temática mais clara seria benéfica.
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Voz e construção da persona — 9,5 /10Indini Analítica é memorável: voz coesa, humor afiado, empatia performática.
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Humor e sátira — 9,0 /10Muitos acertos — as melhores passagens mordem com precisão. Pequenas repetições tiram força em alguns momentos.
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Linguagem e estilo — 8,5 /10Estilo coloquial eficaz; o uso performático de travessões e caixa alta funciona, mas pede variação rítmica.
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Ritmo e concisão — 7,5 /10Oscilações: trechos vivazes alternam com blocos redundantes. Cortes trariam agilidade.
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Originalidade e relevância temática — 9,5 /10Tema atual, tratamento inventivo; contribui para o debate cultural sobre IA com humor e sensibilidade.
Nota final ponderada: 8,8 /10
Um conto inteligente, atual e espirituoso — que mistura piada e crítica sem perder o calor humano. Com pequenas intervenções de edição (poda de redundâncias, organização temática, um episódio-âncora), tem tudo para atingir um público amplo e também ganhar atenção crítica.
Resenha crítica do conto "Veneno" de Priscila K. Rodrigues
Estrutura narrativa
Personagens
Recursos simbólicos
Linguagem e ritmo
O final
Conclusão
Avaliação Técnica
9/21/2025
Autópsia da memória e do desejo - Resenha crítica do conto "Manobra de Autópsia" (Natália Paz)
Natália Paz, em Manobra de Autópsia, entrega um conto que alia intensidade narrativa e precisão técnica, projetando uma cena de reencontro amoroso com a minúcia de um exame forense e a febre de um romance mal resolvido. O título não é apenas sugestão, mas método: a cada seção, a autora abre, expõe, disseca — e convida o leitor a testemunhar a anatomia da saudade.
Logo no primeiro parágrafo, o gesto trivial de Catarina — traçar um coração na taça apenas para apagá-lo — estabelece o tom: tudo aqui é efêmero, mas carregado de peso simbólico. Esse detalhe cotidiano funciona como chave de leitura: o amor é aquilo que se grava e se desfaz no mesmo movimento. Ao redor dela, a festa de casamento se torna metáfora perfeita: celebração pública, mas também liturgia dos mortos-vivos, em que alianças brilham mais como algemas douradas do que como promessas de futuro.
Os personagens como corpos em dissecção
Catarina é o centro da narrativa e, de certo modo, a própria narradora secreta — não apenas porque percebemos o mundo por meio de suas observações minuciosas (o tempo medido em segundos, as rotações da aliança no dedo), mas porque sua voz interior estabelece a cadência do conto. Ela começará uma especialização em medicina legal, e sua escolha ecoa em cada escolha lexical: fala de necrópole, autópsia, exumação. Mas aqui a perícia é sentimental: o casamento morto, a juventude preservada como cadáver em formol, os amores antigos reaparecendo para serem dissecados com o mesmo rigor. Catarina é uma personagem dividida entre o impulso de viver “perigosamente viva” e o cálculo clínico da sobrevivência.
Tomás, por sua vez, é construído pela autora como fantasma e corpo, simultaneamente. Fantasma porque retorna do passado com a força de um trauma não cicatrizado, repetindo gestos e falas que ecoam em Catarina como estilhaços de memória. Corpo porque sua presença física — a gravata frouxa, o perfume que ainda resiste por baixo de novas camadas — desencadeia respostas sensoriais, como se o próprio cheiro fosse uma prova material de que o passado não se extinguiu. Tomás é simultaneamente culpado e redentor, figura de desejo e de ameaça.
O marido de Catarina, Roberto, aparece quase em negativo. Ele é uma ausência marcada por indícios: o caso extraconjugal, as noites de mentira, a indiferença às marcas do corpo da esposa. Se Tomás encarna a memória insuportavelmente viva, Roberto representa a morte lenta do cotidiano. É significativo que, no dilema final, Roberto não apareça fisicamente: resta apenas o celular com mensagens apagadas, um nome hesitado. Sua presença fantasmática é o outro polo da encruzilhada de Catarina.
Técnica narrativa e recursos formais
O domínio do tempo narrativo é um ponto alto. A autora entrelaça presente e passado sem rupturas bruscas: o olhar de Tomás no salão desliza para a escadaria do colégio; a dança atual convoca o banco traseiro do carro adolescente; o terraço frio convoca o banheiro enfumaçado da festa de aniversário. Essas transições não são meros flashbacks, mas verdadeiros cortes anatômicos, mostrando como o tecido do presente é feito de cicatrizes do passado.
A recusa da catarse
É notável que Paz se recuse a oferecer desfecho confortável. O dilema final — táxi ou BMW, lençóis previsíveis ou motor em combustão — não é resolvido, mas multiplicado. O conto se encerra na indecisão, na bifurcação que permanece em aberto. Essa suspensão é o gesto mais corajoso do texto: em vez de conduzir o leitor à redenção ou à tragédia, a autora o mantém diante da incerteza, obrigando-o a sentir a vertigem da escolha.
O lugar de Natália Paz
Num cenário em que a prosa brasileira contemporânea frequentemente oscila entre a ornamentação excessiva e a secura minimalista, Natália Paz encontra um lugar singular: sua escrita é lírica sem ser ornamental, visceral sem descambar em melodrama. A corporeidade de sua prosa — taças, alianças, suor, tecidos, cheiros — ancora a reflexão abstrata em materialidade concreta.
Manobra de Autópsia mostra que a autora domina a difícil arte de conjugar intensidade e técnica. A cada cena, Paz revela que amar, lembrar e desejar são atos inseparáveis de dissecação: abrir o peito alheio em busca de um nome gravado e, ao fazê-lo, encontrar-se diante da própria ferida.
No fim, talvez a maior virtude do conto esteja no paradoxo que ele encarna: é uma autópsia que não resulta em cadáver, mas em sopro de vida. Porque toda memória dissecada continua pulsando, mesmo sob o risco de nos destruir.
9/15/2025
Fraque, Calor e Outras Tragédias
8/25/2025
O restaurante do velho Edmundo
– O velho Edmundo era o melhor cozinheiro da cidade. Digo, cozinheiro de comida árabe. Era argelino, o cara, e falava francês com um sotaque esquisitíssimo. Tinha sido grumete de navio grego, que fazia uma rota no Mediterrâneo. Antes disso, tinha sido artista de circo como homem-bala e fazendo dobraduras com barras de aço. Era um sujeito versátil.
– E a comida?
– O cara tinha aprendido a cozinhar em alto-mar. O pessoal que ele servia estava interessado em duas coisas: gordura e volume. E se não estivesse bom, ele apanhava. Dois anos navegando por aí, o cara aportou no Rio de Janeiro e fugiu. Foi pro Paraná e arrumou um emprego como vendedor de calcinha.
– Hein?!
– É, o cara ia nos puteiros vender lingerie barata. Foi aí que ele conheceu o amor da vida dele. Era uma puta que ele simplesmente elegeu como a coisa mais maravilhosa da face da terra. E EMPRENHOU a puta! Ela nem estava muito a fim dele, tanto que saiu do Paraná e foi pro Rio Grande do Sul, levando a filha, e se escondeu no interior do Estado.
– E daí?
– Daí que ele deu um jeito de encontrar a vadia, viveu um tempo com ela, suficiente para fazer mais duas filhas, e depois não teve chance: se separaram, ele ficou com as três filhas, a mulher foi pro Paraguai, e ele foi pra Porto Alegre, onde montou um restaurante.
– E como era esse restaurante?
– Não era um restaurante aberto ao público. Ficava numa esquina esquecida, perto do centro da cidade. Para entrar ali, era preciso ser indicado por outro freqüentador do recinto.
– Como um clube fechado?
– Exatamente. Como a memória do velho Edmundo estava meio prejudicada, havia uma senha. Era o nome artístico do velho no tempo em que ele cantava ópera: “Grilli”. Era só chegar na janela e gritar: “E aí, Grilli, esse quibe sai ou não sai?”
– Mas e a comida, porra?
– O melhor quibe cru que eu já comi na minha vida. Tudo era bom lá. Só tinha alguns problemas: a comida levava umas duas horas pra ficar pronta, tinha uma maldita tevê preto-e-branco ligada a TODO VOLUME em cima do balcão, e as baratas andavam por tudo.
Aqui se come (1) - Kapusniak
Ao invés disso, vou contar como se faz uma excelente sopa de repolho, a kapuśniak.
Comece colocando uma meia-garrafa de vodca Wyborowa no congelador, de um dia para o outro. Na manhã seguinte, abra a vodca e sirva uma generosa dose em um copo pequeno. Beba tudo de uma vez. Tem gente que bota pimenta branca moída dentro do copo, para dar um punch a mais. Eu já experimentei e recomendo.
Pegue duas batatas-doces, descasque, pique e coloque numa panela de pressão com água. Dê pressão nas batatas por uns 20 minutos, até que desmanchem. Enquanto isso, sirva-se de mais uma dose de Wyborowa. Veja como, pouco a pouco, a vida começa a parecer mais agradável. Um salaminho com limão cairia bem agora...
Bem, abra a panela de pressão (estou presumindo que você SAIBA como abrir uma panela de pressão). As batatas sumiram e se transformaram em um caldo espesso. Este caldo será a base da sopa. Agora entram em cena as costelinhas de porco defumadas. Corte-as em pedaços e jogue neste caldo. Adicione bacon. Neste momento, é hora de temperar. Cuidado com o sal, pois as costelinhas e o bacon já são salgados.
Depois disso, meta pressão de novo. É um bom momento para tomar mais uma dose de vodca. Devido à grande quantidade de álcool, a vodca jamais congela - em aparelhos domésticos, claro. A temperatura de congelamento do álcool é mais ou menos 37 graus negativos. Porém, se você mergulhar uma garrafa de vodca em nitrogênio líquido, ela congela, sim senhor. Mas perceba como, após passar a noite no congelador, ela adquire uma consistência oleosa e desce que é uma beleza.
Depois de mais 20 minutos, abra a panela. Está quase pronto. Acrescente repolho em fatias finíssimas e cozinhe, sem tampar, por pouco tempo, até que ele fique só um pouco macio mas sem amolecer muito. Apague o fogo.
Neste momento, procure um vinho decente na despensa. De preferência, um Cabernet Sauvignon. Abra a garrafa e beba uma taça, estalando a língua. Olhe pela janela da cozinha e respire fundo. Pense em como a felicidade realmente às vezes está nas pequenas coisas. Não que devamos desprezar as grandes coisas. Tudo tem sua hora.
Esta sopa perde muito do seu sabor se não for consumida com vinagre branco. Funciona assim: encha um prato fundo com o caldo espesso, as costelinhas e o repolho. Pegue a colher, encha com o vinagre e despeje sobre a sopa. Repita a operação quantas vezes quiser, misturando bem o vinagre no caldo e experimentando o gosto. Depois, saboreie a kapuśniak. Beba um bom gole de vinho e grite em polonês sem sotaque: "Na zdrowie"!