1/17/2026

Sexo e Farofa

Eu sempre acreditei que o destino tivesse senso de humor, mas não imaginava que fosse do tipo sacana. Daqueles que te colocam num supermercado às 23h47 de uma terça-feira para comprar duas coisas que, juntas, denunciam imediatamente uma pessoa: camisinha e farofa.

Não era nem a farofa de marca séria, aquela com orgulho de raiz e sódio suficiente para empalhar um javali. Era farofa temperada. Com bacon artificial. O que me transformava oficialmente no tipo de homem que perdeu o rumo da própria vida — e nem percebeu.

Eu podia explicar. Juro que podia. A camisinha era óbvia — prevenção, civilidade, pacto honesto com a Organização Mundial de Não Arranjar Filhos e Doenças. Mas a farofa… ah, a farofa tinha história. Tinha promessa. Tinha saliva. Porque nada diz mais sexo real do que a fome que sobra depois. E alguém, algumas horas antes, tinha sussurrado no meu ouvido:

— Depois eu quero farofa. Daquela bem porca.

E aí, meu amigo, quando alguém fala isso no teu ouvido com a boca quente de vontade, você aceita. Você aceita qualquer coisa. Você atravessa a cidade, abandona princípios morais, trai sua lombar, esquece a dignidade no porta-luvas. Vai. Faz. Compra. Farofa. Acontece.

Foi assim que eu parei no Extra da Ricardo Jafet às 23h47, iluminado por neon cansado, cercado por gente que já tinha desistido do amanhã. Carrinhos rangendo como lamentos existenciais. O inferno tem ar-condicionado e fica aberto até meia-noite.

Aí ela apareceu.

Jeans preto. Camiseta branca. Cabelo preso num coque bagunçado que parecia de propósito. Um tipo de beleza simples, perigosa, dessas que não pedem atenção — pegam. Corpo direto ao ponto: fome, curiosidade e algo na postura que dizia eu sei entrar e sair de histórias sem me queimar.

Ela empurrava o carrinho com quatro itens essenciais da vida adulta suspeita:
— vinho barato,
— papel higiênico folha dupla,
— leite condensado,
— e um pacote de pão de forma, como quem declara ao mundo: “não tenho mais ilusões”.

Ela olhou pra mim. Depois para minha mão. Depois para o que eu carregava. E sorriu — o sorriso clínico de quem diagnostica alguém sem piedade.

— História interessante aí, hein.

— Longa demais pra contar — respondi. — Mas posso garantir que envolve moralidade duvidosa, sódio e escolhas erradas.

Ela se aproximou. De perto, tinha olhos que falavam dialetos antigos de luxúria funcional. Gente que já viveu. Gente que não perde tempo com frescura emocional.

— Histórias longas são as melhores. Dá pra resumir?

— Em três frases.

— Manda.

— Promessa carnal. Falta de planejamento. Farofa.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Isso não são três frases. Isso é um convite.

Foi ali, entre sacos de carvão e promoção de salsicha, que percebi: o universo às vezes abre portais. Pequenos portais lubrificados.

— E você? — perguntei. — Vai levar leite condensado pra quê?

— Eu não explico nada depois das onze da noite — ela disse. — Mas posso mostrar.

Fudeu. Eu estava dentro. Não havia mais retorno possível. Desejo não tem freio ABS.

Ela se aproximou mais. Perigoso perto. Um cheiro limpo de banho recente misturado com pele quente e intenção. Falou baixo:

— Você cozinha?

— Faço o básico.

— Ótimo. Eu transo o básico. A gente combina.

Eu ri. Ela não.

E foi assim que o Extra virou prelúdio, o caixa automático virou cúmplice e a madrugada se abriu como perna impaciente.

Mais tarde, no chão da cozinha dela — azulejo frio, boca quente, mãos erradas nos lugares certos — descobri duas verdades absolutas:

1. Tesão é logística.

2. Farofa não é acompanhamento — é destino.

****

Ela mordeu meu lábio como quem assina contrato e disse no meu ouvido:

— Joga a farofa. Eu quero suja. Quero indecente. Quero desgraça.

E eu fiz. Porque há pedidos que vêm de regiões da alma onde Deus não fiscaliza.

Depois, suados, ofegantes e vivos de verdade pela primeira vez na semana, dividimos a mesma colher direto do saco. Ela, nua, mastigando farofa como pornografia antropológica, virou pra mim e disse:

— Isso não foi sexo casual. Isso foi nutrição.

Algumas pessoas acreditam no poder do amor. Outras, no destino.

Eu? Eu acredito no Extra da Ricardo Jafet.

Porque depois daquela noite aprendi: sexo passa; farofa fica.


Continua.
A vida é suja e deliciosa.

Série SEXO E FAROFA
(uma ode à carne, ao caos e à lucidez brasileira)

11/26/2025

O Neymar que “Perdeu” o que Nunca Teve


O Brasil é um país tão criativo que, se deixar, a gente inventa até verbo novo por osmose. Esta semana, por exemplo, decidi que ia acompanhar as manchetes esportivas com a calma de um monge tibetano. Não durou três segundos.

A manchete do UOL diz:


"Neymar avalia ‘sacrifício’, mas deve perder reta final do Brasileiro.”

Perder.

Reta final.

Assim, sem dó, sem massagem, sem dicionário.

O redator, iluminado pelo espírito santo do anglicismo, achou que podia traduzir to miss como "perder" em qualquer contexto — mesmo quando o português olha pra isso com o mesmo espanto de quem encontra um pato tentando latir.

Porque, vamos combinar: ninguém “perde” a reta final do campeonato. Não é carteira, não é ônibus, não é final olímpica, não é ingresso do show. Reta final não é objeto portátil. O Neymar não acordou, olhou pro calendário e disse: “Pô, cadê minha reta final? Tava aqui ontem…”.

O que a frase queria dizer, com a pureza de uma flor de plástico, era:

Neymar deve ficar fora da reta final.

Ou ainda:

deve desfalcar o time, não deve jogar, vai estar ausente.

Soluções todas muito bem comportadas, de procedência honesta e criadas sem depender do sistema financeiro lingüístico de outro país. Mas claro, o atalho do inglês brilha como sirene de polícia: to miss the final stretch. E o redator pensa: “Ah, tá fácil: perder”.

É assim que nasce o que eu chamo carinhosamente de anglicismo zumbi — aquele que anda, tropeça, invade a língua e deixa todo mundo desconfortável com seu cheiro de tradução automática. Não agrega, não melhora, não afina o texto. Só existe. Como um fantasma que arrasta correntes pela redação.

E o mais bonito é que, com isso, Neymar agora corre o risco de “perder” a reta final do Brasileiro da mesma forma que você pode “perder” uma pizza no micro-ondas: não faz sentido, mas tá escrito, então passa.

A imprensa brasileira tem essa vocação poética de transformar decalque em manchete, manchete em hábito e hábito em “novo português”. E amanhã a gente lê: “Jogador perde primeiro turno”,
“Técnico perde seqüência de jogos”,
até que um dia alguém “perde o campeonato inteiro” só porque estava no departamento médico tomando Gatorade.

No fim das contas, quem perdeu mesmo foi o português. E perdeu feio. Sem VAR. Sem recurso. Sem súmula.

Mas tudo bem: domingo tem rodada, segunda tem manchete, e terça tem mais um verbo sendo seqüestrado pelo bilingüismo apressado da nossa imprensa.

E eu estarei aqui, firme, com meu binóculo lingüístico, procurando onde foi parar a coerência — porque, pelo visto, essa sim o pessoal perdeu mesmo.

A Crise Que Virou Montanha-Russa Sem Trilho


Se tem uma coisa que me diverte — e me desespera, mas com aquele desespero gostoso de quem joga dominó num velório — é o entusiasmo da imprensa nacional em praticar arapucas linguísticas como se fossem esporte olímpico. Hoje, por exemplo, descobri que crises no Brasil agora são escaláveis. Não no sentido de ficarem maiores, veja bem, mas no sentido literal de você poder escalar a danada, como quem sobe o Pico do Jaraguá com uma garrafinha d’água e a dignidade nas mãos.

A manchete da vez do UOL diz, rufem os tambores desafinados:


“Motta e Alcolumbre escalam crise e não vão à cerimônia de sanção do IR.”

Escalam.

Crise.

É disso que eu tô falando.

Nenhuma corda, nenhum mosquetão, nenhum guia alpino. Só a boa e velha preguiça intelectual que faz o redator olhar para o inglês to escalate e pensar: “Puxa, é bonito, vou usar”. O problema é que, no português, o verbo não significa isso. No português, “escalar a crise” parece mais “tentar subir nela”, o que, convenhamos, é uma imagem excelente para a política brasileira: um bando de gente tentando se agarrar a uma parede lisa, escorregadia, e ainda batendo no peito como se fosse natural.

Mas erro é erro, mesmo quando sai no jornal — aliás, principalmente quando sai no jornal. É por isso que eu digo: o decalque é a mula-sem-cabeça do texto. Não serve pra montar, não serve pra puxar, não sabe nem pra onde vai. Só aparece pra assustar a língua e deixar rastros de ferrugem sintática.

Em vez de “escalar”, tínhamos opções honestas, de pedigree, domésticas, criadas com ração nacional e sem influência do dólar: “agravam”, “acentuam”, “ampliam”, “esticam a corda” — mas não, o redator preferiu o inglês requentado, enfiado no microondas da pressa.

E assim seguimos, tropeçando em manchetes cada vez mais bilíngües, cada vez mais semânticas de aplicativo, cada vez mais com cara de quem estudou meia página de gramática e achou que era poliglota. A língua, coitada, só observa do canto, com aquele olhar de tia velha que sabe que vai sobrar pra ela limpar a bagunça.

No fim das contas, Motta e Alcolumbre não escalaram crise nenhuma. Quem escalou — e escorregou — foi o próprio UOL. E caiu feio.

Mas tudo bem. Amanhã tem outra manchete. E outra corda bamba. E outro redator se achando alpinista sem ter aprendido a amarrar o cadarço.

Porque, no Brasil, até a crise é climbable. Ou quase.

11/14/2025

O Desfecho Cremoso — um tratado sobre a vitória do esfíncter sobre o destino

(À maneira de George Mikes, se houvesse nascido em Pindamonhangaba e tivesse hemorróidas)


Há autores que encerram suas trilogias com guerras, amores impossíveis ou dragões. A inefável Vitória (@derrotaf) encerra com um vaso entupido. E, por Deus, que catarse!

Última atualização da minha cirurgia de hemorroida — Parte 3: Atualização Cremosa” é o Finnegans Wake do intestino grosso — e, simultaneamente, o Dom Quixote das pregas redimidas.

A heroína, agora pós-operada e pré-aliviada, enfrenta o maior desafio humano: libertar o que ficou preso. A narrativa começa tensa, com um dilema ético e muscular: trancar ou não trancar o cu? Uma dúvida digna de Shakespeare — To squeeze or not to squeeze.

O texto é uma sinfonia em três movimentos:

1️⃣ A contenção trágica, em que o medo e o ibuprofeno duelam sob o olhar clínico do celular gravando o rosto da autora.

2️⃣ A libertação apoteótica, com a frase definitiva: “Soltei o cu. E foi merda pra todo lado.” — talvez o verso mais humano da literatura desde “Call me Ishmael.”

3️⃣ A contemplação pós-heróica, quando Vitória olha para o vaso, vê o “mandiocão preto duro” e, em gesto quase religioso, reconhece ali sua vitória sobre a matéria.

George Mikes, entre risadas histéricas, escreveria: “Os ingleses dominam o understatement; os brasileiros dominam o underflush.”

Porque o que se descreve aqui não é só defecação — é libertação, é catarse, é a reconciliação entre o corpo e o cosmos.

E como esquecer a galinha Brigadeiro, silenciosa testemunha de toda a saga? Que animal, ao ver o trono reconquistado, não teria cacarejado um “Aleluia intestinal”? Ela é o anjo da guarda cloacal, a metáfora viva da paciência: observa, cacareja e espera o milagre acontecer.

Vitória encerra com a serenidade dos que viram o abismo e o transformaram em post:

“Não tenha medo de cagar. Uma vez que você libera o brioco, tudo fica mais fácil.”

Nietzsche sorri. Freud aplaude. Mikes gargalha até tossir chá pelas narinas.
E nós, leitores, secamos as lágrimas (de riso e empatia) diante dessa verdade universal.

A arte, afinal, é isso — transformar o cocô em catarse.

Epílogo britano-tropical:

Se “O Pequeno Príncipe” nos ensinou que o essencial é invisível aos olhos, Vitória nos ensina que o essencial, às vezes, é inalável.

O Trono e o Trauma — um ensaio sobre a epopeia anal contemporânea

(à maneira de George Mikes, com galinácea de apoio moral)


Há quem tema que a crônica brasileira tenha perdido o pudor de rir de si mesma — e, mais grave, do próprio intestino. Surge então Vitória (@derrotaf), que se apresenta como “um bife à milanesa acometido de depressão” e escreve “Minha cirurgia de Hemorroidas — Parte 2: O Retorno!!!” com a fleuma de uma britânica que trocou o chá das cinco por óleo mineral às seis.

Mikes aprovaria: a graça nasce do contraste entre a compostura e o caos. Vitória relata gases com pontualidade ferroviária, cataloga fármacos como quem descreve talheres e, num gesto científico digno de Oxford, cheira o papel (apenas encostado, esclarece) para aferir notas de pus. É o humor seco do gentleman aplicado ao banheiro público da vida.

A metáfora triunfa quando “as novas pregas piscam”: Hamlet, versão retal. O drama épico desloca-se do campo de batalha para o trono de porcelana — Aquiles com ibuprofeno, Eneias com cetoprofeno, Ulisses guiado por Lactugold. Nada é gratuito: cada frase é dreno, cada hipérbole, uma sutura.

E então entra a galinha Brigadeiro — não mero adereço, mas coro grego de penugem. Enquanto a nação aguarda o “desfecho cremoso”, Brigadeiro oferece a vigilância estoica do galináceo metafísico: a ave que cacareja diante do destino e testemunha, impassível, a tragicomédia do esfíncter humano. Em Mikes, haveria um vizinho húngaro; em Vitória, há uma galinha brasileira — e é perfeito. O absurdo ganha penas e, com isso, respeitabilidade literária.

Conclusão: se existisse Nobel de Sinceridade Sanitária, Vitória levaria com menção honrosa à Brigadeiro, patrona da resiliência intestinal. Aguardemos a Parte 3 — O Desfecho Cremoso, munidos de humor britânico, papel folha dupla e um respeitoso “có-có-ri-có” para a musa emplumada que, de cima do varal, nos lembra: tudo passa — até o que demora a passar.

10/28/2025

Punhetando o Celular, Fugindo do Totem


No Shopping Metrô Santa Cruz existe um templo da modernidade chamado KFC. Não é Louvre, não é MASP, não é biblioteca pública. É um altar de frango empanado em cubas térmicas, iluminado por LEDs frios e patrocinado por colesterol, mas ainda assim — e talvez justamente por isso — é um retrato do Brasil urbano em estado bruto. Porque nada revela tanto sobre um povo quanto aquilo que ele faz na fila com fome e pressa.

A cena foi assim: uma criatura de uns quarenta anos, diante de um dos totens de autoatendimento, declara solenemente, em voz alta pra quem quisesse ouvir, como quem anuncia que prefere vinil ao Spotify porque “tem mais alma”:

— Eu não sei mexer nessas máquinas.

Nessas máquinas.

Disse "essas máquinas" como quem diz “reator nuclear”, “instrumento de tortura medieval”, “cabine de teletransporte experimental do governo americano”.

Era um totem de pedido de fast-food.

E eu fiquei olhando. Porque eu gosto de observar gente em ambiente de shopping como quem observa fauna em documentário da BBC. Cada indivíduo tem um comportamento ritual, territorial, uma coreografia própria, e se você não interfere, você aprende. Havia, no caso, três elementos interessantes: (1) a criatura não parecia cognitivamente incapaz de tomar decisões básicas; (2) a interface do totem era literalmente igual à de qualquer app de delivery: foto do balde, botão “+”, botão “finalizar compra”; e (3) dois minutos depois de declarar a própria impotência tecnológica, ela estava no celular — e aqui faço citação fiel — punhetando a tela com uma agressividade táctil digna de felino entediado. Toca. Arrasta. Zoom. Rola. Troca de app. Mensagem de voz. Tudo.

Então, a pergunta que resta é: como é possível que alguém que domina o smartphone — aquele cassino vertical de dopamina com WhatsApp, Pix, Shopee, Reels de gente dançando e feed infinito de humilhação pública — não seja capaz de tocar “Combo Box de Frango Picante” → “Adicionar Batata” → “Confirmar Pedido”?

A resposta óbvia seria “preguiça”. Mas preguiça é só a casca. Preguiça é diagnóstico de boteco. A verdadeira camada interessante é orgulho.

Vamos por partes.

Primeiro ponto: ninguém, absolutamente ninguém na São Paulo de 2025, é ignorante quanto a operar tela sensível ao toque. A pessoa pode não saber instalar Linux Arch no terminal, mas ela sabe tocar um botão com o dedo. Isso é fato antropológico. A espécie já se adaptou. Se você entrega um iPad para uma criança de dois anos, ela desliza o dedo como se tivesse feito cursinho. Se você entrega para uma senhora de 82 anos, ela clica no ícone errado três vezes, reclama, mas aprende — porque existe motivação. Motivação é “eu quero ver as fotos do neto”. A diferença entre “não sei” e “aprendo” é só desejo.

O autoatendimento do fast-food não é mistério técnico. É desafio simbólico. É humilhação potencial.

Porque o totem tem uma crueldade moderna: ele te faz admitir que você está sozinho. Não existe mediação humana. É você e seu pedido. É você e a sua fome. É você e a sua gramática calórica. O totem testemunha.

Quando você vai ao caixa com uma moça de boné e polo vermelha, a dinâmica é muito mais misericordiosa. Você olha pra pessoa e diz: “um balde daquele promocional mais dois molhos barbecue e sem pimenta porque minha gastrite tá atacada, viu”. É quase confissão. Você joga metade da vergonha pra ela. Ela escreve. Ela absorve. Ela passa a ser cúmplice. Você não está sozinho com suas escolhas.

Agora, tenta fazer isso no totem. O totem não te olha com empatia. O totem não ri da tua piada. O totem não diz “relaxa, é normal pedir balde de 18 tiras às 10h40 da manhã, ontem teve um cara que levou três”. O totem faz pior: o totem lista, em letras grandes e bem iluminadas, COMBO MEGA ULTRA CRUNCH 3.157 CALORIAS. E pergunta: ADICIONAR EXTRA DE MAIONESE? (+R$ 3,00). A cada toque seu, o totem registra que você é o tipo de pessoa que diz “sim” para mais gordura por mais três reais. É intimidade demais sem testemunha humana.

Então “eu não sei mexer nessas máquinas” em muitos casos quer dizer “eu não quero ser visto pela máquina”. Ou, num dialeto sociológico ligeiramente mais honesto: “não vou passar vergonha na frente de uma tela que pode expor que eu não entendi o passo três, porque se eu travar, eu viro entretenimento público sob iluminação de shopping”.

Porque existe esse terror difuso: o medo de colocar a mão e não saber sair. O medo de errar no meio. O medo de virar vídeo. A criatura de quarenta anos cresceu no Brasil pré-smartphone adolescente, mas virou adulta no Brasil pós-smartphone, que é um país onde qualquer tropeço vira conteúdo de 15 segundos com trilha engraçada. O sujeito já entendeu que a cidade inteira está sempre pronta pra rir de você. A fila do KFC é um espaço hostil. Você está cercado de gente que não dorme oito horas por noite há anos e que está a um stories de distância de te transformar em trending topic de terça-feira. Não é pouca coisa.

Mas tem outro detalhe, ainda mais sutil: o caixa humano é prestação de serviço; o totem é obediência.

No caixa, você é cliente soberano. Você fala, a pessoa digita. Você manda. Você é “patrão”. (Essa ilusão de hierarquia é um dos últimos caramelos emocionais acessíveis ao brasileiro médio em 2025.) Já no totem, você não manda nada. Você segue etapas. Se você não seguir as etapas, a máquina simplesmente não libera frango. Ela tem uma ordem lógica e você precisa se adaptar a ela. Tem gente que aceita isso sem drama — porque já se acostumou a obedecer algoritmo desde que acorda (“passe agora pela Radial Leste, trânsito leve” / “pague amanhã o mínimo do seu cartão ou você morre socialmente” / “este vídeo é perfeito pra você, veja até o fim”). Mas tem gente que ainda precisa manter um fiapo de soberania performática. Gente que precisa dizer “eu não me dobro à tirania do totem de frango”, como se isso fosse ato de resistência civil.

Essa recusa performática é importante. Repara que a frase não foi “oi, você pode me ajudar?”. Não foi “com licença, é a primeira vez que uso, como funciona?”. Não, foi um pronunciamento público: “eu não sei mexer nessas máquinas”. Em voz alta. Do tipo que chama os outros pra testemunhar. Isso faz duas coisas ao mesmo tempo: (1) cria álibi moral (“se eu não uso, não é porque sou preguiçoso, é porque a tecnologia é absurda”), e (2) convoca serviço humano obrigatório (“alguém venha aqui me resgatar, porque eu sou da era analógica e mereço deferência”).

Ou seja, o “eu não sei” é na verdade “eu não quero ter que saber”. É um ato de recusar adaptação como forma de manter status. É a última trincheira de muita gente de classe média baixa/baixa média/superior baixa/baixa superior (essas castas flutuantes do varejo paulistano) que já perdeu quase todos os outros símbolos de poder cotidiano.

Antigamente, status era “eu tenho carro”. Hoje carro é boleto. Antigamente, status era “eu pago o jantar em dinheiro vivo e ninguém parcela nada”. Hoje até farmácia parcela desodorante em 3x. Antigamente, status era “eu tenho secretária”. Hoje você grita “Alexa, timer 5 minutos pro miojo”. Então sobra o quê? Restou mandar em atendente de fast-food. O totem ameaça isso. O totem diz: “você não manda mais nem no molho”.

Claro, há também o componente teatral da incompetência. O brasileiro dominou isso com maestria: fingir desamparo estratégico para terceirizar esforço. Criança faz isso com lição de casa: “não sei matemática” (sabe, só não quer fazer sozinha). Marido clássico faz isso com máquina de lavar: “amor, esse botão aqui é qual mesmo?” (é o botão que ele aperta todo sábado desde 2019). E agora adulto faz isso com tecnologia de varejo: “não sei usar aplicativo de banco, moça, faz o Pix pra mim e eu te dou o dinheiro em espécie”. É sempre o mesmo roteiro. Tem menos a ver com ignorância e mais com transferência de carga cognitiva.

Essa “criatura” em particular, depois de fazer o escândalo ritual “eu não sei mexer nessas máquinas”, dirigiu-se ao caixa físico. Fez o pedido com todas as especificidades (queijo extra, troco em dinheiro, copo grande). Pagou. Recebeu o número. E então, em paz consigo mesma por ter preservado seu microterritório de poder humano-cara-a-cara, encostou num pilar e começou a, tecnicamente falando, masturbar o próprio celular (“punhetar o celular” é uma expressão tecnicamente muito precisa, ainda que não conste no dicionário Houaiss). Polegar direito em frenesi. Indicador auxiliar. Scroll frenético, múltiplos aplicativos, navegação em abas, digitação com as duas mãos, envio de áudio, correção de áudio, riso digitado, sticker animado, reactions em cascata.

Era uma pessoa que poderia tranqüilamente: – escolher combo, – revisar pedido, – confirmar pagamento sem contato, – usar cupom promocional de terça.

Mas preferiu encenar a fraqueza.

Por quê?

Porque a recusa não é tecnológica. É social.

Existe uma camada de classe escondida aí. Totem de autoatendimento tem aura de “faça você mesmo”. Faça você mesmo é lindo quando é influencer nórdica montando prateleira de bambu sustentável no Pinterest. Quando é “faça você mesmo ou ninguém vai te atender porque cortamos metade do quadro de funcionários pra ganhar margem”, aí já vira precarização. Muita gente sente — com uma intuição muito correta, aliás — que a existência do totem não é pra te dar autonomia, e sim pra cortar salário de atendente. E reage a isso instintivamente: “não vou colaborar com a máquina que rouba emprego do cara”. Às vezes essa reação é sincera, às vezes é desculpa elegante. Mas ela existe.

Então, algumas pessoas não usam o totem como forma de declarar lealdade ao caixa humano (“eu valorizo o trabalhador”), o que também é uma forma de construir autoimagem moral: “eu sou bom cidadão, não terceirizo tudo pro robô”. Só que, vamos ser sinceros, geralmente essa mesma pessoa não está fazendo sindicato com o atendente, não está na rua pela CLT, não está brigando por hora extra. Ela só está reforçando o próprio conforto narrativo. Mas é um conforto legítimo: ninguém gosta de se sentir cúmplice da própria substituição futura.

E aí chegamos no ponto final, que é quase cruel: o sujeito sabe usar tecnologia quando ela lhe dá prazer; nega usar quando ela lhe cobra ação.

No celular, ele é rei. Ele decide qual vídeo ver, quem bloquear, quem xingar, qual meme mandar. É um parque de diversões coordenado pelo algoritmo, sim, mas com a ilusão plena de escolha a cada segundo. É entretenimento e autopropaganda. Já o totem do KFC não é entretenimento; é responsabilidade. Não tem feed, não tem curtida, não tem narrativa. Tem só uma pergunta objetiva: “o que você quer comer e como você quer pagar?”. E aí a coisa fica séria, porque decisão explícita cansa.

Decidir cansa muito mais do que rolar timeline. Rolando timeline você reage. Pedindo comida você assume. “Eu escolhi isso, paguei isso, vou ingerir isso.” É quase calvinista. É quase protestante. É prestação de contas dietética e financeira, ali, em público, sob luz branca. Às 14h37 de uma terça-feira, Shopping Metrô Santa Cruz, praça de alimentação. Quem é que quer esse tipo de accountability moral em plena tarde? Ninguém. É óbvio que é mais gostoso performar impotência e terceirizar.

E perceba um detalhe psicológico suculento: depois que a criatura faz o pedido no caixa humano, ela volta pro celular. Isso é lindo. Isso é poesia urbana. É como se ela dissesse: “Pronto, mundo adulto resolvido. Agora eu retorno ao útero digital, onde tudo é dedo e brilho e não tem consequência calórica rastreável.”

Esse gesto — fugir da decisão e correr pro conforto dopaminérgico — é um retrato muito honesto de todos nós, não só dela. Você acha que é diferente porque você sabe usar o totem? Não é. Você também faz teatro. Só muda o palco.

Você faz teatro quando diz “não sei cozinhar” e pede delivery pela quinta vez no mês, mas sabe montar do zero uma planilha de imposto de renda com três abas e macro. Você faz teatro quando diz “detesto política, não entendo nada” e passa quatro horas xingando deputado nos comentários. Você faz teatro quando diz “sou tímido” mas posta vinte stories de close no espelho da academia e um reels de 1m40 explicando o segredo da sua panqueca proteica.

A diferença está só no tipo de tecnologia que você decidiu declarar impossível pra continuar sendo a pessoa que você conta pra si mesmo que você é.

“Eu não sei mexer nessas máquinas” é só o dialeto culinário de “não é meu papel fazer isso”. E “não é meu papel fazer isso” é o último escudo emocional que separa o adulto cansado da plena consciência de que, sim, na verdade, tudo já é seu papel.

Você tem que fazer pedido sozinho. Você tem que montar currículo sozinho. Você tem que marcar consulta sozinho num app que trava. Você tem que pagar conta sozinho digitando trocentos dígitos de código de barras porque a câmera não funcionou. Você tem que acompanhar o boletim do filho em plataforma gamificada que não funciona no Chrome. Você tem que atualizar o cadastro no plano de saúde senão corta atendimento. Você tem que aceitar cookies, gerenciar senhas, confirmar e-mail, clicar no link que foi pro spam, refazer senha porque o link expirou, e provar que você não é um robô clicando em todas as fotos que contêm semáforos, inclusive aquele poste duvidoso no fundo que talvez seja poste de iluminação e não semáforo mas você marca mesmo assim porque já tá irritado.

Ser adulto urbano em 2025 é basicamente resolver captchas emocionais o dia inteiro.

E aí, quando chega a hora do almoço, o sujeito olha pro totem e pensa: “não, aqui não. Aqui, pelo menos aqui, alguém vai me servir, alguém vai me ouvir, alguém vai confirmar ‘é isso mesmo, senhor?’, alguém vai validar minha existência carnívora e me entregar um número impresso num papelzinho térmico que prova que eu ainda sou atendido por seres de carbono”.

E eu, vendo isso, em vez de rir (muito), fiquei com uma pontinha de pena. Porque no fundo é melancólico. É a coreografia da resistência mínima. É a barricada de frango empanado contra a automação total.

Mas também fiquei com uma pontinha de irritação, confesso, porque existe um custo coletivo nessa birra performática. A fila anda mais devagar. O atendente que poderia estar só resolvendo exceções (alergia, cupom que não vai, nota fiscal pra PJ) acaba virando também babá emocional de adulto saudável que decidiu não “saber mexer”. E isso retroalimenta a profecia: a fila do caixa fica enorme, o totem vazio, e todo mundo na fila olha pro totem vazio e pensa “se ninguém tá usando, deve ser complicado”. E pronto, acabou. A tecnologia que era pra aliviar vira decoração futurista com cheiro de álcool isopropílico.

Tem algo de genial e de trágico nisso. A gente, como sociedade, cria um sistema em que você tem que ser usuário avançado de tudo o tempo todo: banco, transporte, comunicação, saúde, alimentação. Empurra isso goela abaixo na marra, sem apoio, sem paciência, sem didática. Aí, quando alguém resiste, mesmo que por vaidade ou encenação, a gente chama de atrasado, de burro, de dinossauro. Mas talvez, só talvez, essa pessoa esteja fazendo, do jeito torto dela, a única greve possível que ainda cabe no intervalo de almoço: “eu não vou fazer o trabalho que vocês me empurraram, eu quero humano.”

Claro que ela quer humano até a hora que o humano atrapalha o TikTok dela. Porque, terminado o pedido, ela volta imediatamente para o retângulo luminoso que é, ali, na prática, o verdadeiro “terminal de autoatendimento”: um totem portátil, eternamente desbloqueado, infinitamente indulgente, cheio de frango metafórico na forma de likes, notificações e conversinhas que não exigem nenhuma prestação de contas nutricional.

Então talvez a frase correta não seja “eu não sei mexer nessas máquinas”.

Talvez seja: “eu só mexo nas máquinas que me tratam como centro do universo.”

E aí — admitamos — quem é que pode dizer que é diferente?

10/27/2025

A Sinfonia do Supino (ou: o dia em que tentei malhar ao som de Beethoven)

Introdução: o homem que não ouvia

Tem gente que ouve música pra correr. Tem gente que corre pra ouvir música. E tem eu: que mal consigo ouvir a própria respiração sem perder o ritmo da contagem das repetições do exercício.

Descobri essa minha condição peculiar — que a ciência ainda não nomeou, mas que merecia um verbete próprio entre “claustrofobia” e “desejo súbito de pastel” — quando tentei fazer uma série de supino enquanto tocava Highway to Hell no fone. O resultado foi coerente com o título: terminei mesmo na estrada para o inferno, com o instrutor me olhando como quem avalia um acidente de carro.

Eis que um dia, no Threads, alguém posta uma daquelas listas com título de autoajuda tipo “As 10 músicas que farão você levantar 10 kg a mais só na marra”. Eu, crédulo como todo brasileiro que acredita que chá de boldo cura falência múltipla de órgãos, pensei: “vai que funciona”.

Spoiler: não funcionou.


O som da musculação

Existe uma crença quase mística de que música melhora o desempenho físico.
Os pesquisadores dizem que o ritmo ativa o sistema límbico, aumenta a dopamina, melhora a coordenação motora e — o mais importante — distrai você da dor.

Mas ninguém avisou o sistema límbico que o beat do funk 150 BPM não combina com o meu ritmo cardíaco de quem subiu três andares de escada com preguiça existencial.

Enquanto a galera na academia parece sincronizada com os graves, eu pareço estar tentando coreografar uma parada militar em câmara lenta.

No leg press, o sujeito ao lado empurra o peso no ritmo do refrão. Eu tento acompanhar e erro a batida, travo a perna no meio do movimento e fico parecendo uma tartaruga tentando levantar um Fusca.

A música, ao invés de me motivar, me distrai. E quando me distraio, erro a contagem. E quando erro a contagem, o instrutor me olha com aquele olhar de padre que já sabe que você vai pro inferno, mas ainda assim insiste no sermão.

— “Vamos lá, parceiro, mais dez!”

— “Já fiz quinze!”

— “Então mais cinco pra compensar a distração.”

O problema é que, quando boto o fone, cada músculo parece começar uma jam session própria. O tríceps entra em ritmo de samba, o quadríceps prefere valsa, e o abdômen, cansado, vai de bossa nova.


A síndrome do maestro interior

Há quem acredite que o corpo é uma orquestra. No meu caso, é um grupo de pagode descoordenado.

Cada movimento tem seu compasso, mas basta tocar uma música qualquer e tudo vira improviso. Se começa Eye of the Tiger, minha panturrilha tenta correr sozinha; se entra Bohemian Rhapsody, fico indeciso entre levantar o peso ou reger a banda imaginária que vive dentro da minha cabeça.

O problema é que eu sou, por natureza, um sujeito metódico. Conto repetições com a seriedade de um contador conferindo nota fiscal. E música, para mim, é arte. Ou seja: tentar unir os dois é como pedir a Nietzsche que narre a abertura do Big Brother.

Enquanto a música toca, minha mente se divide entre seguir o ritmo e refletir sobre a letra. Durante o supino reto, Phil Collins canta “I can feel it coming in the air tonight”, e eu penso: “isso é uma metáfora sobre o capitalismo tardio ou um alerta de tempestade?”. Resultado: deixo o peso cair no peito e quase provo empiricamente a teoria da gravidade.


Os tipos de ouvintes de academia

Depois de alguns meses de observação empírica — também conhecida como “ficar sentado fingindo que descanso entre séries” —, percebi que há espécies distintas de humanos que ouvem música durante o treino.

1. O Motivado Épico:
Ouve trilhas sonoras de Rocky Balboa e Gladiador. Treina como se cada repetição fosse vingar a morte da família em Esparta. Normalmente berra “boraaa!” no meio da academia. Costuma ser confundido com o professor, o que lhe causa prazer místico.

2. O DJ Espontâneo:
Usa fones gigantes, balança a cabeça, e acredita estar no Tomorrowland. Grita “uhul” entre as séries, gesticula como se manipulasse botões invisíveis. Costuma derrubar o halter no pé do próximo.

3. O Romântico Maldito
Treina ouvindo Adele, Marisa Monte ou Legião Urbana. Tem cara de quem levou um pé na bunda e decidiu malhar a dor. Chora discretamente entre uma série e outra. No final, substitui o whey por sorvete.

4. O Filosófico:
Bota podcast de Nietzsche, mas pausa na metade porque o agachamento exige mais concentração que o Zaratustra. Entre uma repetição e outra, anota reflexões no bloco de notas: “O esforço físico é o mais honesto dos niilismos”.

5. O Silencioso (meu grupo):
Treina sem fone, sem trilha, sem nada.
Sente o som da respiração, o eco dos pesos batendo, o grito primal do instrutor.
Somos os monges trapistas da academia: calados, introspectivos e ligeiramente assustadores.


A ditadura do fone de ouvido

Hoje em dia, treinar sem fone é quase subversivo. Você entra na academia e sente olhares de piedade, como se estivesse nu.

A indústria do fitness transformou o fone em símbolo de produtividade. É o amuleto tecnológico que separa o atleta do mero mortal.

Quem está de fone parece focado, determinado, conectado a uma freqüência cósmica onde o pump é eterno e o suor é sagrado.

Já quem não usa fone parece um infiltrado da década de 1980, um senhor nostálgico que ainda acredita em rádio AM.

Outro dia, uma garota me perguntou, incrédula:

— Você treina... sem música?

Respondi:

— Treino com o som da realidade.

Ela me olhou com pena, como quem observa um homem que ainda acredita em fita cassete.


O problema da batida

Meu cérebro tem um bug de fábrica: ele tenta sincronizar tudo. Se o beat é rápido, acelero o movimento; se é lento, desacelero. Na rosca direta, isso é um desastre.

Com funk, faço dez repetições em oito segundos. Com samba-canção, fico trancado na segunda.

Descobri que o único ritmo compatível com o meu metabolismo seria o tic-tac do relógio da parede. E mesmo assim, só se for um relógio preguiçoso.


O silêncio como trilha sonora

Foi então que descobri o prazer do treino silencioso.

Sem música, comecei a perceber a coreografia oculta do ambiente: o estalar dos cabos, o chiado do ar-condicionado, o barulho das anilhas se tocando — uma sinfonia industrial minimalista.

Há algo profundamente zen em ouvir o próprio corpo reclamando. O som do ar entrando e saindo, o ranger discreto das articulações, o coração batendo no ritmo do esforço.

Enquanto o sujeito ao lado faz agachamento ao som de Anitta, eu descubro o mantra interno do “levanta, respira, segura, solta”.

E percebo que a música, às vezes, não é trilha: é ruído.


O instrutor filósofo

Um dia, confessei ao instrutor minha dificuldade com música. Ele olhou pra mim, encostou o halter no chão e, com a solenidade de quem vai citar Aristóteles, disse:

— Cada um treina com o som que merece.

Achei profundo. Talvez fosse, talvez não. Mas, no fundo  ele só quis dizer “pára de me encher o saco e faz o exercício direito”.

De todo modo, fiquei pensando: se o treino é pessoal, por que uniformizar o ritmo? Se cada corpo tem sua batida, cada alma tem seu silêncio.


Experimento científico (fracassado)

Resolvi testar minha hipótese. Abri um arquivo no bloco de anotações e passei uma semana anotando o desempenho com e sem música.

Segunda: rock clássico.
Resultado: quase desloquei o ombro tentando sincronizar com a guitarra do AC/DC.

Terça: MPB.
Resultado: esqueci de respirar durante Sampa, hiperventilei e comecei a filosofar sobre Caetano em plena ergométrica.

Quarta: Funk.
Resultado: tentei rebolar no leg press. Dores musculares e vergonha coletiva.

Quinta: Jazz instrumental.
Resultado: fiquei introspectivo demais. Parecia estar num film noir. Esqueci de contar as repetições.

Sexta: Silêncio.
Resultado: paz interior, foco, e a epifania de que eu não precisava de fones — só de juízo.

Conclusão científica: meu corpo rejeita trilhas sonoras externas.


A economia do silêncio

Além da paz mental, há vantagens econômicas.

Enquanto os outros gastam fortunas em fones bluetooth, assinaturas de streaming e playlists de “power hit”, eu economizo o suficiente pra pagar uma cerveja depois do treino.

O sujeito que investe 2.000 reais em fone sem fio e 300 em mensalidade de academia acha que está comprando disciplina, mas está só financiando o silêncio que eu tenho de graça.


O dia em que tentei voltar à música

Mas o vício moderno é forte. Certo dia, cedi à pressão social e voltei a colocar o fone.

Primeiro acorde de Metallica e senti a testosterona subir à cabeça. No segundo refrão, já estava levantando mais peso que o habitual. No terceiro, percebi que o peso estava apoiado no meu pescoço.

Fui salvo por um rapaz de 19 anos, tatuagem de dragão, que levantou o halter com uma mão só, me olhou e disse:

— Tá pegando leve, tiozão.

Desde então, abandonei de vez a carreira musical durante os treinos.


Reflexões de vestiário

No vestiário, enquanto os outros trocam stories de “bora ser forte”, eu fico pensando: a academia é o último templo do individualismo sonoro. Cada um trancado no próprio universo auditivo, isolado, anestesiado.

Há algo de melancólico nisso.
O som coletivo da humanidade foi substituído por playlists privadas. Ninguém ouve mais o outro — só o beat próprio.

O silêncio, que antes era vazio, virou resistência.


Filosofia de halter

No fundo, minha incapacidade de treinar com música é sintoma de uma filosofia pessoal: a de que certas atividades exigem presença absoluta.

Malhar, pra mim, é o último bastião do “aqui e agora”. Se eu estiver com a mente em outro lugar, o músculo percebe e me pune.

Enquanto a música tenta me transportar, o peso me puxa de volta pra Terra —
e, às vezes, literalmente.

Treinar em silêncio é ouvir a verdade brutal do corpo: ele não mente, não edita, não tem auto-tune.


A inveja dos outros

Não nego: às vezes invejo quem consegue. Vejo o sujeito suando, feliz, embalado no trap, e penso: “como deve ser bom ter coordenação suficiente pra não morrer no meio do refrão”.

Mas logo lembro que cada um tem sua sina. Uns nascem pra dançar; outros, pra respirar ofegantes e fazer piada depois.


Crônica sonora da academia

A academia é um zoológico de sons. O ferro batendo, o gemido heroico, o grito “boraaaa!”, o click dos fones se conectando. É uma trilha de Casseta & Planeta: cômica, absurda e involuntariamente musical.

Outro dia, o som ambiente misturava Axé com Heavy Metal e sertanejo universitário. Parecia que o Spotify surtou. Mas ninguém notava — cada um já estava no seu próprio multiverso sonoro.

Eu, ali, sem fone, era o único que ouvia o conjunto. O resultado era cômico: uma sinfonia dodecafônica com gemidos, chiados e “uhul, campeão!”

Se Villa-Lobos ressuscitasse, escreveria Bachianas Musculatórias n.º 5.


O silêncio como luxo moderno

No mundo das notificações, silêncio virou artigo de luxo. Treinar sem música é, paradoxalmente, uma forma de ouvir melhor.

Ouço o que ninguém mais ouve: o som do peso encostando no chão, o zíper do casaco, o suspiro depois da última repetição. E, acima de tudo, o pensamento que finalmente se aquieta.

Enquanto a batida externa tenta me impor ritmo, o silêncio me devolve o meu.


A epifania na esteira

Certa manhã, na esteira, sem fone, percebi algo curioso. O som dos passos criou uma cadência própria.

Ta-ta, ta-ta, ta-ta.

Era música.

Minha música.

Descobri que, no fundo, todo treino já tem trilha: o corpo é o instrumento, o ritmo é biológico.

Desde então, não precisei mais de playlists. Tenho uma orquestra interna afinada pelo esforço e regida pelo suor.


Considerações sobre o absurdo (Millôr aprovaria)

A vida moderna é um exercício de distração. A música virou o modo aceitável de fugir de si mesmo.

O sujeito que malha com fone não quer ouvir o peso cair, quer esquecer que o peso existe. Eu, que treino sem fone, prefiro encarar o barulho da realidade — ainda que desafinada.

Se Camus tivesse ido à academia, teria escrito O Mito de Sísifo Fitness: um homem empurrando o leg press infinitamente, enquanto o som do funk ecoa e ele pensa: “pra quê tudo isso?”.


Epílogo filosófico-muscular

Depois de tanta reflexão e suor, cheguei à seguinte conclusão: não é que eu não goste de música — eu só gosto dela demais pra usá-la como pano de fundo de uma flexão.

Música, pra mim, exige atenção plena. E academia exige atenção plena. Tentar fazer as duas é como querer filosofar durante uma colonoscopia.


Conclusão (com moral)

Moral da história: cada um tem o beat que merece.

Se o seu é eletrônico, dance.

Se é de rock, berra.

Se é de funk, rebola.

Mas se o seu é o silêncio — então, amigo, bem-vindo ao clube dos que levantam peso em paz e saem da academia ouvindo o barulho mais bonito do mundo: o da própria sanidade intacta.


P.S.: Já tentei ouvir música clássica também. Mas quando começou A 5ª Sinfonia, percebi que Beethoven só compôs aquilo porque nunca teve que disputar o supino numa academia lotada de segunda-feira.

10/22/2025

A Toca da Esfinge e o dom do olhar profundo: uma leitura dos poemas de @tocadaesfinge

Há poetas que escrevem como quem borda — ponto por ponto, com cuidado, costurando o sentimento até que ele se torne forma. Outros escrevem como quem respira — instintivamente, com ritmo natural, sem pedir licença à racionalidade. Em @tocadaesfinge (visite o perfil do Instagram), a impressão é de alguém que faz ambas as coisas ao mesmo tempo: pensa e sente com igual intensidade. Sua poesia habita um raro território intermediário entre o intuitivo e o elaborado — uma síntese que a crítica moderna, por vezes apressada, tende a subestimar.

1. A mulher-loba e a poética da intensidade



O primeiro poema, de tessitura extensa e narrativa, é quase um retrato expressionista. A autora constrói a figura da mulher indomável com uma precisão imagética notável — “uivava baixo para atrair e com potência para se fazer entender” —, frase que parece saída de um filme de Tarkóvski adaptado ao trópico. A força do texto está na alternância de registros: o épico e o doméstico, o cósmico e o cotidiano, coexistem sem atrito. Tecnicamente, o poema combina lirismo confessional e descrição realista com domínio de ritmo e cadência, ainda que de modo orgânico, quase oral.

A metáfora central — a mulher como força da natureza — é sustentada por uma coerência interna rara: cada imagem amplia o eixo da liberdade e da entrega. Há aqui ecos de Hilda Hilst, mas com uma doçura que pertence apenas à autora.


2. O tempo que dança bossa nova


No segundo poema, a poeta transita para uma estética minimalista, de tom coloquial e musicalidade leve. O tempo, esse velho tema da poesia ocidental, surge humanizado, “passa arrastado, feito unha de gato no sofá novinho” — uma imagem de surpreendente eficácia sensorial. O contraste entre o cômico e o terno é manejado com precisão.

Do ponto de vista técnico, nota-se uma estrutura cíclica: a abertura em ritmo lento (tempo arrastado), o clímax no “tempo que passa cantando bossa nova” e a resolução no convite à disposição. O poema é redondo, resolvido em forma e tom. Há nele uma sabedoria serena que lembra Drummond em A Máquina do Mundo, mas com uma voz mais íntima, quase doméstica.


3. Ser dona de si


O terceiro texto é o mais conciso, mas também o mais declarativo. “Ser livre é ser incapaz de se deixar limitar” poderia soar como aforismo de perfil de rede social — não fosse o contexto poético que o envolve. A autora escapa do clichê pela cadência e pela ironia leve (“Ri da possibilidade de me ver assim”). O poema é um exercício de voz: breve, mas contundente, sustentado por ritmo e pausas precisas.

Do ponto de vista técnico, há domínio de paralelismo e de antítese, e a fluidez entre verso livre e frase prosaica cria uma tensão produtiva. A economia verbal aqui é virtude, não limitação.


4. O ranço e o grotesco


O quarto poema rompe o lirismo dos anteriores e adentra o terreno do grotesco, com resultados notavelmente expressivos. O uso da palavra “ranço” como eixo metafórico é arriscado — e é justamente esse risco que dá força ao texto. A autora constrói uma sátira visceral, que mistura humor, repulsa e crítica social, sem perder densidade literária.

Há ecos de Arnaldo Antunes e Angélica Freitas, mas com uma voz narrativa que sabe rir de si mesma: “Viveria na corte dele, talvez seria o bobo, e ele glutão e escroto.” A ironia, nesse ponto, atinge maturidade estilística. É a poeta mostrando que sabe lidar tanto com o sublime quanto com o asqueroso — e que ambos, afinal, são matéria da vida.


Avaliação técnica

Imagética: 9/10

Uso consistente e sensorial das imagens, com fluidez entre planos simbólicos e concretos.

Musicalidade / Ritmo: 8,5/10

Cadência natural, domínio de pausas e repetições; alguns versos poderiam explorar mais o silêncio.

Originalidade de voz: 9/10

Há autenticidade, humor e densidade emocional — uma dicção própria já em amadurecimento.

Consistência temática: 9/10

Liberdade, tempo e identidade feminina aparecem como fios contínuos e coerentes.

Técnica formal: 8/10

Predomínio do verso livre bem manejado; linguagem prosaica ganha dimensão poética sem esforço.


Conclusão: a esfinge que se revela

Ler @tocadaesfinge é perceber uma autora em pleno domínio de sua sensibilidade — uma escritora que já encontrou sua voz, mas ainda a reinventa a cada texto. Sua poesia combina o gesto confessional com um refinamento técnico discreto, que não se exibe, apenas se deixa notar.

Há nas suas palavras uma espécie de “inteligência emocional estética”: ela entende o humano pela linguagem e entende a linguagem pelo humano. E talvez seja esse o maior elogio que se possa fazer a uma poeta — a capacidade de fazer o leitor sentir que a vida, ainda que fugaz, é plenamente habitável pela palavra.

10/18/2025

A Farofa Invisível (série "Sexo e Farofa")

O apartamento ainda cheirava a corpo.
Corpo e cebola.

Deve haver algo de profundamente brasileiro nessa mistura — o perfume da carne e o cheiro da cozinha, como se o amor, no fim, fosse apenas uma refeição que a gente esqueceu de lavar a louça depois.

Abri a janela e a cidade entrou como um cachorro molhado: ruído, ar úmido, solidão. São Paulo nunca dorme, mas às vezes cochila com um olho aberto, vigiando a miséria dos outros.

A pia tinha pratos empilhados, duas taças, um garfo solitário e o pote de farofa. Aquela farofa que sobrou de ontem — ontem que já parecia uma vida inteira. Peguei o pote. Ainda estava morno da memória.

Não sei se alguém entende o que é acordar com restos.
Restos de alguém, de vinho, de desejo.
Tudo o que sobra tem uma honestidade que o prazer nunca alcança.

Tomei um gole de café frio. A boca ainda tinha o gosto de sal e ironia. Na mesa, um pedaço de papel com a letra dele:

“Volto quando a chuva parar.”

Chove há três dias.

No começo, eu achava bonito dormir com alguém que fala pouco. Agora acho perigoso. O silêncio dos outros é uma floresta: você entra achando que é sombra, mas sai coberta de musgo.

Toquei a colher dentro do pote. A farofa estava seca, dura, com aquele brilho de gordura que se nega a morrer.

Provei.

Era boa.

Tinha o gosto das coisas que se recusam a pedir desculpa.

A luz da manhã entrava torta, cortando o chão em faixas. Havia farelos espalhados — pequenas estrelas amarelas sobre o piso preto. Pensei em varrer. Não varri.
Varrer é apagar provas, e eu ainda precisava delas.

No rádio do vizinho tocava um sertanejo antigo. Alguém cantava que “ninguém é de ferro”. Discordei em silêncio: somos todos um pouco de ferro — enferrujados, cortantes, pesados.

Peguei o celular, abri o aplicativo de mensagens e não escrevi nada. O desejo é covarde às nove da manhã.

Abri a geladeira. Metade de uma garrafa de vinho, meio limão, o pote de farofa.
Trindade de quem vive só.

Sentei no chão. A cidade fazia barulho de ônibus e perdão. E pensei que talvez o amor fosse isso: o momento em que a gente olha o próprio resto e diz “ainda serve”.

A farofa, invisível sobre os dedos, parecia ouro pobre. E eu, como sempre, estava à altura do desperdício.

***

Ele tinha o hábito de acender o cigarro antes de vestir a calça, como se o corpo precisasse de nicotina para aceitar de volta a decência. Lembro disso porque ainda há cinza na beirada da pia, e o corpo dele, agora ausente, continua poluindo o ar da cozinha.

Disse que iria comprar pão. Mas não disse qual padaria, nem se voltava. Pão é a forma educada de sumir — alimenta a esperança enquanto esfria o afeto.

Passei os dedos pelo lençol amassado. Tinha o cheiro dele e da farofa. Sim, ele abriu o pote depois, rindo, dizendo que era “comida de gente feliz”. Eu não estava, mas comi. A felicidade é contagiosa por alguns minutos; depois vira indigestão.

Enquanto ele mastigava, falava de política, de traduções, de como o mundo estava cansado de gente que sente demais. Eu fingia ouvir, mas só observava a forma como os ombros dele se moviam quando mastigava. É estranho desejar alguém e, ao mesmo tempo, saber que não vai funcionar. O corpo grita “fica”, a lucidez cochicha “não compensa”.

A cama rangeu.

A cidade tossiu um trovão.

Ele me olhou com aquela expressão de quem não promete, apenas acontece.
Houve um toque — breve, morno, familiar — e o resto do diálogo foi substituído por respiração.

Não há como descrever o instante em que duas pessoas param de pensar. É a única hora em que o tempo respeita o corpo. Depois, tudo volta a ser relógio e culpa.

Quando acabou, ele riu, meio culpado, meio vitorioso, e disse:

— Você devia vender essa farofa. É melhor que terapia.

— A terapia é mais cara — respondi. — E menos gostosa.

Ficou um silêncio que não era constrangido, mas cansado. O tipo de silêncio que você embala, porque sabe que vai acabar logo.

Ele levantou, vestiu a calça, acendeu outro cigarro. Disse “já volto” e foi comprar pão. Três dias depois, ainda não voltou.

Abri a janela — essa janela sem vista que todo apartamento tem — e o cheiro da chuva entrou com cara de piada velha.
No fundo do pote, um restinho de farofa, um punhado mínimo de sal e gordura. Peguei com a ponta dos dedos. Era a prova material de que algo aconteceu. O resto é lembrança e digestão.

***

A casa amanheceu do mesmo jeito: pia suja, cheiro de cebola, farofa pela metade. Nenhum drama, só continuidade.
Descobri que a vida não termina — ela repete.

Passei a vassoura, mas os farelos teimaram em ficar. Eles brilham, minúsculos, entre as frestas do piso, como se o pó de ontem quisesse continuar morando comigo. Pensei em Clarice, aquela mania dela de achar sentido até em casca de banana. Pensei também em Bukowski, que diria “varre logo essa merda e abre outra garrafa”.
Entre os dois, escolhi observar.

É curioso o quanto o resto das coisas se parece com o resto das pessoas. Depois que alguém vai embora, sobra um pouco de tudo: um par de meias, uma frase solta, o reflexo no espelho. E a farofa — inevitável, democrática, nacional. Todo amor acaba com farofa no prato, no chão ou no coração.

Sentei no sofá e fiquei olhando a fumaça do café, o mesmo ritual de todos os dias. O tempo é o verdadeiro amante de quem vive só: chega sem ser chamado, faz o que quer e sai pela porta deixando a conta. A solidão, percebo, é um luxo que poucos sabem usar.

Ri sozinha.

O riso veio fácil, desses que saem porque o corpo se defende. Lembrei do que ele disse sobre terapia e pensei que talvez estivesse certo. A farofa tem algo de terapêutico: não julga, não consola, mas te ocupa a boca para não dizer besteira.

A cidade lá fora ronronava o mesmo caos. Um caminhão de gás tocava a música da infância, os cachorros latiam, alguém discutia por vaga de estacionamento. Tudo normal, como se a minha tragédia fosse uma piada interna do universo.

Peguei o pote e olhei contra a luz. Os grãos dourados pareciam suspensos no ar — poeira com dignidade. Foi aí que percebi que a farofa era invisível não por falta de cor, mas por excesso de costume. Ela estava em tudo: na pia, na pele, na memória. Como o amor quando ainda não aprendeu a morrer direito.

Talvez seja isso que resta da vida: o gosto leve e salgado das coisas que não voltam. O corpo esquece, a boca lembra.
E o mundo gira, mesmo que a gente ainda esteja sentado à mesa esperando o pão que nunca vem.

***

A tarde caiu do jeito que São Paulo sabe fazer: preguiçosa, encardida, com uma luz bege que não ilumina nem escurece. O rádio falou de trânsito e política; eu mexia a farofa na frigideira sem fogo, só pra ouvir o som. É preciso barulho pra fingir presença.

O apartamento parecia suspenso, meio fora do tempo. Pensei nele — ou em todos os “eles” que já passaram. Os nomes somem, mas o corpo lembra os gestos: a mão que acende o cigarro, o riso torto depois do gozo, o silêncio que sempre vem antes da porta bater. A cada lembrança, mais farelo.

Clarice sussurra: “o que permanece é o instante.” Bukowski responde: “o instante acaba em dois tragos.” Entre um e outro, estou eu — mulher, resto e testemunha.

Olhei para o prato e percebi que a farofa estava no ponto exato entre quente e fria, viva e morta. Como o amor quando já desistiu de doer, mas ainda não aprendeu a desaparecer.

Comi devagar, não de fome — de respeito.
Há rituais que merecem cerimônia, mesmo sem altar. A cada colherada, um pensamento doméstico: o coração é uma panela de ferro, o mundo uma mesa que nunca se limpa, e a gente, o tempero que sobra.

Lá fora, um trovão ensaiou aplausos.
Pensei que talvez fosse Deus aprovando meu cardápio sentimental. Ou só o trânsito comendo pneus na Marginal.

Terminei de comer, fechei o pote e senti uma calma absurda. A vida inteira cabe no intervalo entre o último gol9e e o próximo desejo. E o desejo — descobri — é invisível só pra quem ainda olha com fome de milagre.

Apaguei a luz, deixei a janela entreaberta.
A chuva voltou, teimosa, lavando o ar.
No escuro, a cidade cheirava a comida e arrependimento. E eu, pela primeira vez, me senti completa com o que restava: um corpo, uma lembrança e um pouco de farofa fria.

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Série SEXO E FAROFA

🥄 Crônicas do prazer, do ridículo e da lucidez paulistana.

Sexo passa. Farofa fica.

10/16/2025

O Único filho da puta no Brasil que traduz do mongol (e por que aprendi essa língua)


Ontem, no Threads, eu soltei um desabafo profissional que, pelo visto, acendeu a curiosidade de muita gente.

A cena era a seguinte: um cliente me manda um calhamaço de PDF em mongol para traduzir para o inglês. 61.000 palavras. Eu, provavelmente o único ser humano entre o Oiapoque e o Chuí que mexe com esse par linguístico específico, mando o orçamento: R$ 40.000.


A resposta veio rápida: o budget era de R$ 7.000.

Como eu disse na rede:

"Boa sorte com a MTPE [Pós-Edição de Tradução Automática] nesse par de idiomas."

A máquina ainda tropeça feio na complexidade do mongol.

Foi então que a sempre perspicaz Helen Valverde (@helendvalverde) comentou, espantada:

"Do MONGOL?? 😮 Achei é barato."

E depois, dei uma resposta que virou o estopim desta crônica:

"E se eu contar por que aprendi mongol..."

Ela, curiosa:

"Quero saber! Amor??"

Pois é, Helen. A história é bem melhor que um simples romance. É uma história de amor, sim, mas com a lógica.


O tédio do poliglota e a busca pelo Everest linguístico

Imagine um cara que, aos 49 anos, já havia domesticado mais de 20 idiomas. Um brasileiro, criado na cacofonia maravilhosa do português, acostumado às estruturas previsíveis das línguas latinas e germânicas. Eu era um hiperpoliglota, mas um hiperpoliglota entediado. Meu cérebro, viciado em decifrar códigos, ansiava por um desafio que fosse radical. Não queria apenas mais palavras; queria uma nova forma de pensar.

Foi quando resolvi procurar o meu Everest linguístico. Algo que não me desse uma única muleta. Nada de cognatos, nada de estruturas familiares. Eu queria um abismo gramatical para saltar.

E no fundo desse abismo, encontrei o mongol khalkha.


A fascinação por um mecanismo de relógio suíço gramatical

Não foi um amor à primeira vista, foi amor à primeira análise sintática. O mongol é uma obra de arte lógica e sonora.

Primeiro, há a harmonia vocálica. As vogais de uma palavra precisam ser todas de uma "família" (posteriores ou anteriores). É como uma composição musical onde cada nota deve estar na mesma escala. Meu ouvido de brasileiro, treinado no samba do português, teve de reaprender a escutar.

Depois, veio o fascínio pela aglutinação. Enquanto no português usamos preposições e auxiliares, o mongol constrói uma frase como se montasse uma molécula complexa. Você pega a raiz de uma palavra e vai encaixando sufixos, um atrás do outro, cada um com uma função gramatical específica. Sujeito, objeto, posse, tempo, modo... Tudo é anexado. É um sistema tão limpo e eficiente que beira a poesia matemática.

E, claro, o alfabeto cirílico foi só a porta de entrada. A curiosidade me levou ao alfabeto tradicional vertical, a escrita clássica que flui de cima para baixo, uma coluna de símbolos elegantes que é uma arte em si mesma.


O experimento dos 50 anos: C1 em 24 meses

Aos 50 — ou beirando essa idade — o mundo gosta de nos dizer que o cérebro já perdeu a plasticidade. Que aprender coisas novas é mais lento. Eu encarei o mongol como um experimento pessoal: será que uma mente madura, mas dedicada, pode não apenas aprender, mas dominar um dos sistemas linguísticos mais desafiadores do mundo?

Tratei como um projeto de engenharia cerebral. Mergulhei de cabeça. Foram 24 meses de estudo intenso, focado e deliberado. No final desse período, eu havia alcançado o nível C1(*). Foi a conquista intelectual mais orgulhosa e satisfatória da minha vida. Era a prova que eu procurava.


E o amor? O amor está na lógica.

Então, Helen, para responder sua pergunta: não, não foi um amor romântico por uma pessoa. Foi um amor pela lógica, pelo desafio, pela arquitetura pura de um idioma.

Foi o amor pela sensação de desvendar um quebra-cabeça que a maioria das pessoas nem sabe que existe. O amor por poder ler a poesia de G. Mend-Ooyo no original, sentindo o ritmo das estepes em cada harmonia vocálica. O amor por entender uma cultura não através de filtros, mas pela lente da sua própria língua.

Aos 54 anos, o mongol não é apenas mais um idioma na minha lista. É a minha conquista definitiva. É o meu Everest.

E é por isso que, quando um calhamaço de 61 mil palavras chega na minha mesa, o orçamento é salgado. Você não está pagando apenas pela tradução. Está pagando por uma década de dedicação a um dos desafios mais insanos que um poliglota pode encarar.

E, convenhamos, é um preço justo para quem é, com orgulho, o único "filho da puta" no Brasil que faz isso.

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(*) O nível C1 é um nível avançado de competência em um idioma, de acordo com o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (CEFR). Nesse nível, o indivíduo consegue compreender uma ampla gama de textos complexos, expressar-se com fluência e espontaneidade, utilizar o idioma de forma eficaz para fins acadêmicos e profissionais e produzir textos claros, bem estruturados e detalhados sobre temas complexos.

10/14/2025

Nietzsche versus Estoicismo: a busca pela verdade e pela ordem é fútil?


O seu copo está meio cheio ou meio vazio?

Essa experiência é considerada uma maneira de diferençar os pessimistas dos otimistas. A lição é inequívoca — uma diferença fundamental de percepção pode levar a um enfoque profundamente diferente em relação à vida.

As críticas de Nietzsche aos estóicos expõem esse tipo de diferença fundamental. é um conflito de filosofias que nos permite refletir sobre como a nossa percepção do mundo forma nossa compreensão dele, e como podemos encontrar significado nele.

Existe um ponto em comum entre a filosofia de Nietzsche e a dos estóicos. Ambos acreditavam que as pessoas não tinham "livre arbítrio" — ou seja, não desempenhamos um papel ativo em nossos destinos.

Porém, Nietzsche é famosos por seus ataques sarcásticos, e o estoicismo é alvo de vários desses ataques, especialmente nos últimos escritos de Nietzsche.

A principal "pinimba" do filósofo do século XIX com os estóicos é a insistência da escola de Sêneca e Marco Aurélio em que seus seguidores deveriam "viver de acordo com a natureza". Esse é o princípio central dos estóicos, que acreditavam que o cosmo e Deus são um só e, portanto, havia uma ordem no cosmo.

Vale mencionar aqui que "natureza" não significa "o mundo natural" (árvores, animais, etc), e sim o cosmo — o todo absoluto do qual fazemos parte.

Viver em conformidade com a natureza é viver de forma racional. Isso porque os estóicos acreditavam que a capacidade distintiva da espécie humana é o pensamento racional. Nenhuma outra espécie tem essa capacidade. Eles acreditavam que a ordem do cosmo se reflete na ordem das nossas mentes.

Ser racional é alcançar a felicidade e a tranqüilidade da mente (“Eudaimonia”), porque assim a pessoa segue o fluxo do cosmo, e não caminha contra ele.

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Um Mundo Sem Sentido

Para Nietzsche, a natureza — o cosmo — é um hipercaos sem Deus. Qualquer “ordem” no mundo é apenas acidental.

As chamadas leis da natureza são apenas o comportamento arbitrário dos fenômenos, que podem muito bem mudar ao longo do tempo. Ver “leis” na natureza não é nada além de perceber padrões e acreditar que eles seguem regras. Quem cria leis e regras são as pessoas, não a natureza.

Nietzsche acreditava que os estóicos se iludiam ao pensar que, escondido nessas supostas leis da natureza, existe um caminho ideal que os seres humanos poderiam seguir. Isso seria a “virtude”, que, para os estóicos, era o mesmo que “viver de acordo com a natureza”.

Mas para um filósofo cético como Nietzsche, não existe nenhuma noção ideal de “virtude” esperando para ser descoberta pelos seres humanos. Em vez de nos conformarmos com um comportamento ideal imaginado, Nietzsche acreditava que cada pessoa devia encontrar seu próprio caminho.

Num mundo caótico e sem sentido, devemos aspirar a criar nosso próprio ideal de nós mesmos, nos nossos próprios termos. A filosofia de Nietzsche enfatiza a criatividade e a exuberância do indivíduo, ao contrário das “morais de rebanho” das filosofias sistemáticas (como o estoicismo) e das religiões.

Há duas razões pelas quais Nietzsche critica a doutrina estóica de viver de acordo com a natureza.

Em primeiro lugar, Nietzsche destaca que, se observarmos o cosmo (o que os estóicos chamam de “natureza” nesse contexto), ele é caótico e desprovido de sentido. Conjuntos inimagináveis de sóis e planetas são destruídos num piscar de olhos por explosões cósmicas; todos os dias, neste planeta, milhões de animais devoram outros animais para sobreviver. As coisas simplesmente acontecem. O cosmo é totalmente indiferente.

Para Nietzsche, não há propósito nem razão na natureza. Como os estóicos acreditavam que a natureza era um ser vivo em si, Nietzsche nos pede que imaginemos uma criatura como a natureza para ilustrar seu argumento:

Gemäss der Natur" wollt ihr leben? Oh ihr edlen Stoiker, welche Betrügerei der Worte! Denkt euch ein Wesen, wie es die Natur ist, verschwenderisch ohne Maass, gleichgültig ohne Maass, ohne Absichten und Rücksichten, ohne Erbarmen und Gerechtigkeit, fruchtbar und öde und ungewiss zugleich, denkt euch die Indifferenz selbst als Macht - wie könntet ihr gemäss dieser Indifferenz leben?

Quereis viver ‘de acordo com a natureza’? Oh, nobres estóicos, que engano verbal! Imaginai um ser como a natureza realmente é: desmedidamente pródiga, desmedidamente indiferente, sem propósito nem escrúpulos, sem compaixão nem justiça, ao mesmo tempo fecunda e estéril, incerta — imaginai a própria Indiferença como força — como poderíeis viver de acordo com tal indiferença? (Em tradução minha).

(Além do Bem e do Mal, 1:9)

Em segundo lugar, Nietzsche aponta a contradição óbvia da aspiração de viver em conformidade com a natureza: nós já somos natureza. Viver de acordo com a natureza é simplesmente… viver. É uma tautologia semelhante à expressão “viver de acordo com a vida” — bem, isso já acontece.

Und gesetzt, euer Imperativ "gemäss der Natur leben" bedeute im Grunde soviel als "gemäss dem Leben leben" - wie könntet ihr's denn nicht? Wozu ein Princip aus dem machen, was ihr selbst seid und sein müsst? (...)  ist denn der Stoiker nicht ein Stück Natur?

E supondo que o vosso imperativo ‘viver conforme a natureza’ signifique, no fundo, o mesmo que ‘viver conforme a vida’ — como poderíeis fazer diferente? Por que transformar em princípio aquilo que vocês mesmos são e têm de ser? (…) — acaso não seria o estóico também parte da natureza? (Em tradução minha).

(ibid.)

Nietzsche suspeita que o verdadeiro imperativo seja, na verdade, o oposto: em vez de a natureza dar significado e propósito ao estóico, é o estóico quem impõe um significado e propósito à natureza.

In Wahrheit steht es ganz anders: indem ihr entzückt den Kanon eures Gesetzes aus der Natur zu lesen vorgebt, wollt ihr etwas Umgekehrtes, ihr wunderlichen Schauspieler und Selbst-Betrüger! Euer Stolz will der Natur, sogar der Natur, eure Moral, euer Ideal vorschreiben und einverleiben, ihr verlangt, dass sie "der Stoa gemäss" Natur sei und möchtet alles Dasein nur nach eurem eignen Bilde dasein machen - als eine ungeheure ewige Verherrlichung und Verallgemeinerung des Stoicismus!

Na verdade, a situação é bem diferente: ao fingirdes que leis com êxtase o cânon de vossa lei na natureza, quereis na realidade o contrário, ó extravagantes atores e enganadores-de-si-mesmos! Vosso orgulho quer ditar à natureza — sim, à própria natureza — a vossa moral e o vosso ideal, quer impor-lhos e incorporá-los nela; exigis que ela seja “natureza segundo a Stoa” e desejais moldar toda a existência à imagem de vós mesmos — como uma imensa e eterna glorificação e universalização do estoicismo! (Em tradução minha)

(ibid.)

A acusação que Nietzsche faz aqui é semelhante ao que chamamos de “falácia patética”. Isso acontece quando projetamos atributos humanos em animais, objetos inanimados ou mesmo na natureza como um todo (pense, por exemplo, na “Mãe Natureza”). “Propósito” e “significado” são conceitos humanos que existem apenas em nossas mentes. Percebemos “ordem” apenas porque o universo se comporta de maneira coerente para nós.

As filosofias do mundo antigo com as quais Nietzsche mais se identificava eram o ceticismo e o cinismo. Nietzsche era o que chamaríamos de “perspectivista” — ele acreditava que nenhum ser humano tem realmente acesso à verdade objetiva.

Segundo Nietzsche, só entendemos o mundo do nosso ponto de vista particular. Em última análise, não existe verdade a ser descoberta, pois "verdade", como "propósito" e "significado", não existe fora da consciência humana.


É um pato ou um coelho? Imagem: "Kaninchen und Ente" ("coelho e pato"), da edição de 23 de outubro de 1892 do Fliegende Blätter. Detalhe.


Um delírio patológico?

Os céticos tinham uma visão semelhante. O fundador da escola, Pirro de Élis (~360 —~270 a.C.), recusava-se a “endossar” qualquer opinião sobre qualquer assunto, porque nenhuma poderia ter base firme na verdade. Para Pirro, as opiniões que temos sobre o mundo, na verdade, nos deixam infelizes (porque o mundo nunca será como desejamos).

Nietzsche, seguindo figuras como Pirro, refutou a idéia de que os seres humanos pudessem realmente ter acesso a verdades profundas. As palavras, afinal, só se referem a outras palavras. Ele escreveu sobre o estoicismo:

Mit aller eurer Liebe zur Wahrheit zwingt ihr euch so lange, so beharrlich, so hypnotisch-starr, die Natur falsch, nämlich stoisch zu sehn, bis ihr sie nicht mehr anders zu sehen vermögt, - und irgend ein abgründlicher Hochmuth giebt euch zuletzt noch die Tollhäusler-Hoffnung ein, dass, weil ihr euch selbst zu tyrannisiren versteht - Stoicismus ist Selbst-Tyrannei -, auch die Natur sich tyrannisiren lässt: ist denn der Stoiker nicht ein Stück Natur?

Com todo o vosso amor pela verdade, forçais-vos por tanto tempo, tão obstinadamente, com uma rigidez quase hipnótica, a ver a natureza de modo falso — isto é, de modo estóico — até que não mais sois capazes de vê-la de outra maneira; e, por fim, alguma soberba insondável ainda vos inspira a esperança de loucos de que, porque sabeis tiranizar a vós mesmos — o estoicismo é auto-tirania —, a natureza também se deixará tiranizar: acaso o estóico não é ele próprio parte da natureza? (Em tradução minha)

(ibid.)

Essa é uma crítica bastante feroz ao estoicismo — a ideia de que a filosofia estóica é mais um sintoma psicológico do que uma visão de mundo.

Os estóicos são retratados aqui como alucinados (loucos), com uma auto-tirania que eles ilusoriamente esperam impor ao universo. Tal esperança é vã, porque a natureza engloba tudo dentro de si, incluindo aqueles que afirmam saber como ela funciona. Suas teorias seriam, então, delírios patológicos.

Nietzsche previu a chamada “virada linguística” na filosofia do século XX. Filósofos passaram a examinar a própria linguagem como a raiz dos “problemas da filosofia”. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein acreditava que todos os problemas filosóficos eram simplesmente “quebra-cabeças de linguagem” que precisavam ser resolvidos.

Para filósofos como Nietzsche e, mais ainda, Wittgenstein, a linguagem é uma ferramenta que os seres humanos usam para alcançar objetivos. Pensar que a linguagem é capaz de descrever o mundo como ele realmente é leva a grande confusão e contradição. Quando perguntamos “o que é o mal?” ou “o que é o real?”, estamos apenas mal-entendendo e mal-usando palavras como “mal” e “real”.

Nietzsche, ainda que critique o estoicismo, acredita que ele caiu na mesma armadilha geral em que todas as filosofias acabam caindo.

Aber dies ist eine alte ewige Geschichte: was sich damals mit den Stoikern begab, begiebt sich heute noch, sobald nur eine Philosophie anfängt, an sich selbst zu glauben. Sie schafft immer die Welt nach ihrem Bilde, sie kann nicht anders; Philosophie ist dieser tyrannische Trieb selbst, der geistigste Wille zur Macht, zur "Schaffung der Welt", zur causa prima.

Mas esta é uma velha e eterna história: o que aconteceu outrora com os estóicos acontece ainda hoje, tão logo uma filosofia começa a crer em si mesma. Ela cria sempre o mundo à sua própria imagem, não pode agir de outro modo; a filosofia é esse impulso tirânico em si, a mais espiritual vontade de poder, a “criação do mundo”, a causa prima. (Em tradução minha).

(ibid.)

Essa ideia é muito semelhante à alegoria de Borges sobre o mapa e o território. Um cartógrafo deseja criar um mapa tão preciso que tenha proporção de 1:1 com o território. O mapa — a imagem do mundo — passa a ser confundido com o próprio mundo. Os filósofos, argumenta Nietzsche, começam a acreditar tanto em suas teorias que essas teorias passam a moldar sua visão da realidade.

Esse é o tipo de “loucura” coletiva que o filósofo descreve quando disse:

Der Irrsinn ist bei Einzelnen etwas Seltenes, - aber bei Gruppen, Parteien, Völkern, Zeiten die Regel.

Nos indivíduos, a insanidade é rara; mas nos grupos, nos partidos, nas nações e nas épocas, é a regra. (Em tradução minha)

(Além do Bem e do Mal, 156)


A Razão como Evidência por Si Mesma

Então como um estóico responderia a um ataque tão devastador?

Uma forma de responder seria partir de primeiros princípios. Epicteto, filósofo do século I d.C., argumenta em seus Discursos que nossa razão é uma verdade evidente por si mesma. Ele ensinou:

[1] ὕλη τοῦ καλοῦ καὶ ἀγαθοῦ τὸ ἴδιον ἡγεμονικόν, τὸ σῶμα δ᾽ ἰατροῦ καὶ ἀπἀλείπτου, ὁ ἀγρὸς γεωργοῦ ὕλη: ἔργον δὲ καλοῦ καὶ ἀγαθοῦ τὸ χρῆσθαι ταῖς φαντασίαις κατὰ φύσιν. [2] πέφυκεν δὲ πᾶσα ψυχὴ ὥσπερ τῷ ἀληθεῖ ἐπινεύειν, πρὸς τὸ ψεῦδος ἀνανεύειν, πρὸς τὸ ἄδηλον ἐπέχειν, οὕτως πρὸς μὲν τὸ ἀγαθὸν ὀρεκτικῶς κινεῖσθαι, πρὸς δὲ τὸ κακὸν ἐκκλιτικῶς, πρὸς δὲ τὸ μήτε κακὸν μήτ᾽ ἀγαθὸν οὐδετέρως. [3] ὡς γὰρ τὸ τοῦ Καίσαρος νόμισμα οὐκ ἔξεστιν ἀποδοκιμάσαι τῷ τραπεζίτῃ οὐδὲ τῷ λαχανοπώλῃ, ἀλλ᾽ ἂν δείξῃς, θέλει οὐ θέλει, προέσθαι αὐτὸν δεῖ τὸ ἀντ᾽ αὐτοῦ πωλούμενον, οὕτως ἔχει καὶ ἐπὶ τῆς ψυχῆς. [4] τὸ ἀγαθὸν φανὲν εὐθὺς ἐκίνησεν ἐφ᾽ αὑτό, τὸ κακὸν ἀφ᾽ αὑτοῦ. οὐδέποτε δ᾽ ἀγαθοῦ φαντασίαν ἐναργῆ ἀποδοκιμάσει ψυχή, οὐ μᾶλλον ἢ τὸ Καίσαρος νόμισμα. ἔνθεν ἐξήρτηται πᾶσα κίνησις καὶ ἀνθρώπου καὶ θεοῦ.

[1] A matéria (hylē) do homem belo e bom (kalos kagathos, isto é, do virtuoso) é o seu próprio hegemonikón (a faculdade dirigente da alma); já o corpo é matéria para o médico e para o massagista, e o campo é matéria para o agricultor. A obra (ergon) do homem belo e bom é fazer uso das representações (phantasiai) de acordo com a natureza. [2] Toda alma é naturalmente inclinada a dar assentimento ao verdadeiro, recusar o falso e suspender o juízo (epoché) sobre o que é incerto; assim também, ela é movida com desejo (orektikōs) em direção ao bem, com aversão para longe do mal, e, quanto ao que é nem bom nem mau, permanece neutra. [3] Pois, do mesmo modo que não é permitido ao banqueiro ou ao vendedor de legumes rejeitar a moeda do César, mas, apresentada a moeda, queira ou não queira, ele deve aceitá-la em troca do que vende, assim também acontece com a alma. [4] Uma vez que o bem se apresente, ele move a alma imediatamente em direção a si; e, da mesma forma, quando o mal se apresenta, afasta a alma de si. Jamais uma alma rejeita uma representação clara do bem, não mais do que rejeitaria a moeda do César. Daí dependem todos os movimentos tanto dos seres humanos quanto dos deuses. (Em tradução minha)

Nesse sentido, Epicteto concorda com Nietzsche ao afirmar que nada na vida é “bom” ou “mau” em si mesmo — apenas nosso pensamento torna as coisas assim. O valor de, digamos, o dinheiro, existe apenas em nossas mentes. Os estóicos também eram perspectivistas.

A natureza — ou melhor, tudo no cosmo — não tem valor intrínseco. Tudo é “indiferente” — nada significa coisa alguma até que nós lhe atribuamos significado. Esse é um aspecto central do pensamento estóico.

Apenas a razão confere significado e propósito ao mundo, e a razão é evidente por si mesma — nós a usamos a cada instante em que fazemos juízos sobre as coisas.

Provavelmente partindo desse princípio, os estóicos construíram uma teologia mais “racional” do panteísmo, que lhes permite descrever o funcionamento do mundo.

Tudo o que é matéria — todas as coisas indiferentes no mundo — é animado por uma razão divina (logos). Se encontramos significado nas coisas, então nossa faculdade racional deve refletir uma razão superior. Como meros fragmentos do universo, não podemos compreender essa razão superior, mas podemos observá-la na relativa previsibilidade de causa e efeito.

Assim, a diferença fundamental entre Nietzsche e os estóicos está em saber se o cosmos é ordenado ou caótico.

Quem acredita numa ordem última no cosmo encontra virtude e até felicidade no código-fonte da existência. Quem acredita no caos último buscará dentro de si mesmo o significado.

A advertência de Nietzsche foi que, se ficarmos entre esses dois caminhos, dogmas que impõem ordem ao mundo acabarão impondo ordem sobre nós mesmos como indivíduos.

Como o próprio Nietzsche escreveu em "Assim Falava Zaratustra (Parte I, Prefácio de Zaratustra, cap. 5):

Ich sage euch: man muss noch Chaos in sich haben, um einen tanzenden Stern gebären zu können. Ich sage euch: ihr habt noch Chaos in euch.

Eu vos digo: é preciso ainda ter caos dentro de vós para poder dar à luz uma estrela bailarina. Eu vos digo: ainda tendes caos dentro de vós. (Em tradução minha)

Nietzsche é um grande desconstrutor, um grande crítico. Suas intuições são como raios-X — penetram a superfície dos dogmas e teorias com os quais ele trava combate. Suas críticas fariam qualquer estóico refletir.

Mas a lição da crítica de Nietzsche é, em última análise, esta: a maneira como encontramos significado e propósito depende de como enxergamos o mundo. O seu copo está meio cheio, ou meio vazio?